terça-feira, 22 de setembro de 2015

Zean Bravo entrevista Walcyr Carrasco para O Globo

RIO - Depois de entrar para a história da teledramaturgia por levar pela primeira vez ao ar um beijo entre dois homens, no último capítulo da novela “Amor à vida”, exibida às 21h pela Globo em 2013, Walcyr Carrasco voltou a fazer barulho na faixa das 23h ao transformar em sucesso de audiência uma história que une prostituição, uma modelo viciada em crack definhando diante do público e um triângulo amoroso entre uma ninfeta, um empresário sem escrúpulos e a mãe dela. Com média de 19 pontos desde a estreia, e recorde de 27 pontos (no Rio), “Verdades secretas” entrou no ar em junho e chega ao fim nesta sexta-feira como a novela de maior repercussão do momento.

Construída ao redor da agência de modelos comandada pela empresária Fanny (Marieta Severo), a trama sobre a menina Angel (a modelo Camila Queiroz, estreante na TV), o empresário Alex (Rodrigo Lombardi) e a mãe da moça, Carolina (Drica Moraes) esteve entre os assuntos mais comentados das redes sociais desde sua estreia, seja pelas fartas cenas de sexo (a nudez de Rodrigo Lombardi gerou infinitos memes na web no primeiro capítulo), ou pela temática forte (com direito a Grazi Massafera transfigurada e acabando na cracolândia). Aos 63 anos, até recentemente mais conhecido pelas histórias leves das 18h e 19h, Carrasco prepara sua volta ao horário das seis com “Candinho” (título provisório), que estreia em janeiro. A seguir, ele fala de polêmicas e novelas.


O mesmo espectador que rejeitou “Babilônia” aceitou a temática forte de “Verdades secretas”? Por que a novela não chocou?

Acho que me tornei parceiro do público em suas preocupações com o mundo. As pessoas têm o direito de saber muita coisa que estava oculta. E, pela dramaturgia, pude falar desses temas.

O termo “book rosa” (modelos que se prostituem) caiu na boca do povo. A abordagem da novela é corajosa? Por que a prostituição atrai tanto interesse?

Sim, fui corajoso mesmo porque tenho muitos amigos donos de agências que me ajudaram com informações. E que concordaram que eu precisava falar dos profissionais que envolvem garotas, menores de idade, nesse esquema. Não posso citar nomes, mas há alguns anos um grande empresário paulista foi processado pela mãe de uma garota de 13 anos, não é impressionante? Ele havia se tornado sócio de uma agência para se aproximar das garotas. Não tenho preconceito com a prostituta. Mas tenho, sim, com a cafetina, que agencia e ganha dinheiro às custas dela.

Que retorno você teve dos profissionais da moda?

O retorno dos profissionais sérios foi o melhor possível. Claro que alguns perderam modelos (houve pais que proibiram as filhas de entrar no ramo após verem a novela). Sabem que foram atingidos. Por outro lado, há até conta de Instagram criada por gente que denuncia books rosas. Um booker de uma grande agência foi demitido porque publicaram um face dele combinando um book azul (versão masculina do book rosa). Vixe, ele deve me odiar!

Em geral, as novelas falam das drogas de modo insinuado. Em “Verdades secretas”, os personagens cheiram, usam crack, numa linguagem próxima das séries. Por que mostrar a droga assim?

Acho que a política sobre drogas está errada, defende a hipocrisia. Penso o contrário. É preciso mostrar, inclusive para trazer o assunto à tona.

Em entrevista ao GLOBO, o diretor de núcleo Mauro Mendonça Filho disse que vocês estão fazendo uma novela da pá virada, mas que os conservadores a veem como denúncia e espaço para a própria fantasia. Qual é a sua opinião?

Maurinho se expressou de um jeito muito divertido, mas acho que a questão é mais profunda. Os conservadores também têm família. Entenderam que não estou defendendo a droga, por exemplo. Mas mostrando até onde uma pessoa pode chegar.

Que marca a novela vai deixar?

Acho que ela ajudou o público a entender que muitas vezes, por trás do glamour, há um lado obscuro. Muitos pais terão mais cuidado com as filhas diante de oportunidades que aparentemente parecem incríveis. E também falou abertamente de temas que devem ser discutidos em família, como as drogas, e até mesmo o aborto.

As cenas de sexo e nudez foram muito comentadas. Você indica no texto exatamente o que quer?

O olhar do diretor é tudo. E tive uma parceria grande com o Maurinho. Ele entendeu todas as intenções, tudo que eu queria e descobriu até o que eu nem sabia que queria.

Gilberto Braga disse ao GLOBO, na época de “Babilônia”, que o país está mais careta, que não é mais possível ter nudez em novela, por exemplo. Concorda?

Respeito a opinião do Gilberto, que é um grande autor. Ver “Vale tudo” (1988) foi fundamental para minha formação como autor. Mas acredito que todos os temas são possíveis, e o público gosta, sim, de temas ousados, como provou com “Verdades secretas”.

Por que a cena de Alex nu foi tão comentada?

A beleza masculina ganhou espaço, principalmente devido à liberação da mulher. Hoje a mulher tem coragem de dizer quando acha um homem bonito.

Alex paga a uma menor por sexo, se casa com a mãe dela para ficar perto da menina, acha que pode comprar tudo. Mesmo assim, parte do público torce por ele. Por quê?

É a magia do ator. Rodrigo Lombardi é extremamente carismático.

Fanny será punida no final? Você teve algum pudor ao botar Marieta Severo sendo chamada de velha em cena repetidamente?

Quem disse que será punida? Quando convidei a Marieta, num jantar, disse exatamente o que seria o papel. E que ela seria chamada de velha e tudo mais. Jogo aberto. Ela aceitou, me deixando livre para escrever.

Após “Amor à vida”, muita gente achou que as novelas tinham avançado ao mostrar o afeto gay. Depois, o público rejeitou o beijo gay de “Babilônia”. Retrocedemos?

Não acho que houve retrocesso nem que “Amor à vida” avançou. Em dramaturgia há variações mínimas que às vezes fogem ao nosso entendimento. Essas teses sobre retrocesso e conservadorismo são apenas teses.

“Candinho” tratará do amor de dois irmãos de criação. Não é polêmico para 18h?

A novela é uma comédia, não tem nada de polêmica. É até ingênua. Vocês verão.



Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/revista-da-tv/autor-de-verdades-secretas-que-chega-ao-fim-na-sexta-diz-que-abordou-sexo-drogas-como-queria-17563467#ixzz3mVeMDLvq 
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segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Correio 24 horas entrevista Walcyr Carrasco

Muito bem na audiência - média de 18 pontos na Grande São Paulo (cada ponto equivale a 67 mil domicílios) - Verdades Secretas chega ao fim na próxima sexta-feira, com alguns finais já revelados e outros guardados a sete chaves.

Entre os finais mais aguardados está o do triângulo central formado por Angel (Camila Queiroz), Alex (Rodrigo Lombardi) e Carolina (Drica Moraes). Em entrevista ao CORREIO, o autor Walcyr Carrasco faz um balanço da trama, elogia os protagonistas e adianta novidades de sua próxima novela Candinho, que estreia na faixa das 18h da Globo no próximo ano.

Tua novela aborda temas fortes como prostituição e drogas e está indo muito bem na audiência. A que o senhor credita o sucesso? 
Eu acho que justamente aos temas polêmicos. As pessoas sentem necessidade de discutir a realidade, sem hipocrisia. A novela procurou abrir a discussão e mostrar as armadilhas que podem surgir na vida das pessoas.

Houve polêmicas com as agências de modelo envolvendo o book rosa retratado na novela. Como encarou isso?
Acho normal, já que muitas agências não fazem e podem ter se escandalizado com o fato do tema ser levantado. Para outras, a carapuça serviu. Mas eu costumo dizer que o país é hipócrita em vários temas: a maconha é proibida, mas qualquer adolescente com dinheiro pode comprar na esquina em qualquer cidade do país; o aborto é proibido, mas uma mulher rica faz, paga caro e não sofre por isso.

Já a mais pobre vai para clínicas sem condições e corre o risco de morrer, como é até comum. Então, que proibição é essa? Rico pode e pobre não pode, é isso? Todo mundo sabe onde é a Cracolândia em São Paulo, mas ninguém dá jeito. E da mesma maneira, sabe-se que muitas agências levam garotas ao book rosa, só que como é um mundo glamourizado, de luxo, finge-se que não existe. A novela teve a coragem de tirar as máscaras.

Recentemente, alguns dos finais da novela vazaram na imprensa. Queria saber se isso incomoda muito o senhor e se de fato pretende mudá-los para surpreender o público?
Olha, o jornalista faz seu trabalho e eu o meu. Se o jornalista é bom e consegue descobrir o final, parabéns!!! Agora será que o final que vazou é mesmo o que vai ao ar?

A história principal, entre Angel, Carolina e Alex, tem dado o que falar. Como o senhor chegou nesta ideia e o que está achando das atuações de Drica, Camila e Rodrigo?
A ideia surge por intuição, é um processo criativo que não sei explicar. Mas as atuações da Drica, do Rodrigo e da Camila são maravilhosas.

Qual o balanço que faz de Verdades Secretas como um todo?
Uma novela de tanto sucesso e repercussão só pode deixar um autor feliz. Estou muito contente com o resultado e faço questão de assistir sempre.

O senhor já tem outro projeto para a faixa das 18h. Como está sendo retornar para o horário onde escreveu tantos sucessos? Foi um desejo seu ou da emissora?
Eu pedi, podem verificar, na entrevista da festa de Amor à Vida. Anunciei que queria escrever uma novela das 18h. Já tinha a ideia. A Globo me convidou para antes escrever a primeira novela inédita das 23h e topei. Aí surgiu a ideia de Verdades Secretas, mas não quis abrir mão da das 18h.

O que podemos esperar de Candinho?
Muito humor, romance e ingenuidade. É meu lado leve.

LINK http://www.correio24horas.com.br/single-entretenimento/noticia/autor-faz-balanco-de-verdades-secretas-novela-teve-a-coragem-de-tirar-as-mascaras/?cHash=24e0c101296a098e862ea6dcfeab4f80

Mauro Mendonça Filho é entrevistado por Lígia Mesquita para Folha de SP

Mauro Mendonça Filho, 50, diretor-geral de “Verdades Secretas”, recebeu a missão de manter a inovação de linguagem no horário das 23h da Globo herdada do folhetim anterior, “O Rebu”.

Repetindo a parceria com o autor Walcyr Carrasco, com quem trabalhou em “Gabriela” e “Amor à Vida”, ele imprimiu um tom de seriado a “Verdades”. A trama, que acaba dia 25, tem média de 19 pontos no Ibope na Grande SP (cada ponto equivale a 67 mil casas).

O diretor falou à coluna:

Como você avalia a novela ?
Tivemos retorno bom de crítica, audiência. Passamos ao largo de qualquer moralismo. A novela ao mesmo tempo que é amoral é moralista. Sendo honesto, a questão de moralidade que teve em “Babilônia” ajudou.

Ajudou de qual maneira?
Todo mundo achou que estávamos em tempos mais liberais. Aí vimos que era ‘opa, peraí’. Careta adora um pecado, sacou? Pensamos: vamos fazer o que é proibido, porque aí pode. Talvez no início nossa visão fosse menos moralista. E o maior público é conservador.

Mudaram algo na trama?
Humanizamos mais a Angel (Camila Queiroz). Passei a tratá-la não como uma garotinha inglesa que faz prostituição e não está nem aí. Passei a mostrar dor, culpa. Comecei a mesclar amoralidade com moralismo. Isso sempre esteve lá no texto, mas talvez a gente estivesse acreditando que não precisasse de um certo moralismo. E precisa. .

A direção melhora um texto?
Genericamente, nunca é possível melhorar um texto. Você pode dar uma roupagem nova, mas não há milagre. Quando você tem texto maravilhoso, dá para fazer coisas impensáveis.

As novelas deviam usar mais a linguagem dos seriados?
O seriado pega do folhetim e vice-versa. A novela devia aprofundar as funções dos personagens. O cara é cientista e só namora? Fica vazio. De linguagem, as novelas deviam pegar menos didatismo, menos close, menos olho lacrimejando, menos ‘overacting’. Argentino chegou num lugar legal de interpretação. Aqui há uma certa vaidade da emoção. A gente é um povo que chora em hino, na hora de bater pênalti. Como se a frieza de raciocínio não ajudasse.

Houve muito ensaio com o elenco de “Verdades”. Faz muita diferença para o trabalho?
Total. O ator tem que…[pausa] TV hoje em dia é : a onça tá vindo no mato e você tem que acertar na cabeça. Não adianta acertar na pata que ela vai te engolir. O ator tem que chegar no primeiro dia de gravação já seguro de qual é o personagem. Tem que chegar lá já pensando em fazer bem, não em descobrir o personagem.
O cara domina a coisa, ensaia e aí tá bom. Chega no set e já sabe.
Sou diretor de ator, sou de teatro. Uma das características do meu trabalho é dizer que neguinho tá bem. E os atores estão bem.
Gosto de ver ator bom quando vou ao teatro, filme com ator bom. Gosto de linguagem, mas gosto de ator bom. Sou filho de atores [Mauro Mendonça e Rosamaria Murtinho]. Se o ator tá bem, meu trabalho tá legal. E não compito. Vai lá e brilha, porque isso leva todo mundo junto a galope.

Há uma cultura de improviso na TV?
Não acho isso é uma regra. Sou muito fiel ao autor com quem tô trabalhando, às ideias e às cenas dele no texto. Eu não julgo muito. Acho que o público tá cada vez mais exigente com repetições, didatismo. O público quer ir além um pouco. O público melhorou muito nos últimos anos.
Qualquer reflexo de programa que não esteja funcionando é de uma mudança que nego tá querendo. Seja para o bem, para o mal, moralista ou não.

Qual mudança vê no público?
[Os conservadores] estão saindo do armário, como disse a Fernanda Montenegro. Sou da opinião que para ter uma boa esquerda tem que ter uma boa direita. Para a réplica tem que ter a tréplica.
Acho absolutamente normal ter conservadorismo, o público é esse aí mesmo. Mas também vi reações maravilhosas do beijo gay em “Amor à Vida”. Aí você vê que tem gente querendo que a dramaturgia reflita mudanças. E acho que as pessoas estão mais exigentes em relação a temas, conteúdo e narrativa.
Acho que durante muito tempo o sistema novela funcionou meio que “quase tudo dava certo”. Agora tem que ralar mais.
Tem que pegar o público pela garganta.

Você sentia falta de uma linguagem mais parecida com a realidade?
O sistema de quatro câmeras [o comum em novelas] foi criado na década de 50, com aqueles shows antigos como da Lucille Ball, “Família Trapo”. É uma certa teatralização de palco italiano.
Aí todas as novelas são iguais, você acaba colocando sua linguagem dentro de um sistema.
Mas “Verdades Secretas” é uma novela menor, tem quatro capítulos por semana. Usamos duas câmeras e fizemos cenários de quatro paredes.
O ângulo não é o mesmo de uma cena pra outra, você tá dentro da casa das pessoas e não percebe que é uma boca de cena. os atores se sentem muito mais dentro dos personagens.

Na época de “O Astro” (2011) você falou que existia uma patrulha da originalidade [o diretor foi acusado de plagiar uma cena da  HQ “Watchmen” nesta trama e de copiar uma cena do filme “O Expresso da Meia-Noite em “Amor à Vida” (2013)]. Continua achando isso?
Acho que tem que ter critério. Eu fui mais cínico, achava isso, que em televisão se imita mesmo a torto e direito. Muito embora as referências visuais são as que mais chamam a atenção e as literárias, não. Tá cheio de histórias inspiradas em fatos reais e ninguém fala nada. Vocês jornalistas também escrevem tendo referências de texto.
Aí o visual acaba sendo o plágio mais evidente. Todo mundo de certa forma puxa uma referência daqui ou ali, mas você aplica de uma certa forma que dá uma burlada nisso.
Mas o visual não pode mais tanto, é o mais evidente.
Penso hoje diferente. Você pode até pegar uma referências mas tem que fazer diferente.
No caso, eu tinha feito uma cena em “Amor à Vida” igualzinha ao “Expresso da Meia-Noite”.
Acho que eram tempos mais cínicos de televisão. Agora, a gente deixa de ser referencial e vira referência, a exigência tem que ser um pouco maior. Tem que ter certos pudores.

Qual foi o maior desafio em “Verdades Secretas”?
Mostrar o vício da Larissa [Grazi Massafera] em crack, sim, foi difícil. Ela lá na cracolândia é uma identificação da gente, nós pequenos burgueses lá. Botei pilha para o Walcyr fazer uma cracolândia. E a ideia foi mostrar uma visão de compaixão. Há uma ideia de que viciado em droga é marginal. É uma doença.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Mauro Mendonça Filho é entrevistado pelo jornal O Globo

RIO - Rodrigo Lombardi e Camila Queiroz ensaiam uma cena de sexo, ainda vestidos, diante de Mauro Mendonça Filho, diretor de núcleo e geral do sucesso “Verdades secretas”, em um cenário montado no Projac.

— Agarra, agarra. Tem que tirar a roupa errado, com ansiedade. A saudade é mais emocional que sexual — instrui o diretor.

Ao lado dos protagonistas da trama das 23h, ele se deita no chão para orientar o comportamento do casal da ficção:

— Encosta, encosta. Os dois vieram de um orgasmo há 20 segundos. Rodrigo está mais largadão, não tão grudento.

Maurinho, como é conhecido no estúdio, gosta de estar ao lado dos atores sempre que pode.

— Ainda não consigo e talvez não consiga ser aquele cara que faz o trabalho no começo, larga e deixa — explica ele, que divide a direção-geral com André Felipe Binder e Natália Grimberg: — Agora, até por um excesso de coisas que venho fazendo nos últimos cinco anos, tenho delegado mais, mas nunca parei de dirigir.

A novela marca a terceira parceria entre ele e o autor Walcyr Carrasco — as outras foram “Gabriela” (2012) e “Amor à vida” (2013). Aos 50 anos, o filho dos atores Mauro Mendonça e Rosamaria Murtinho percorreu um longo caminho: chegou à Globo aos 18 anos, onde trabalhou como editor e assistente de direção em tramas como “Vale tudo” (1988) antes de chegar a diretor, em “Renascer” (1993). Mauro abre a nossa série de reportagens com os principais diretores de novelas. Na entrevista a seguir, ele fala de suas referências, arrependimentos e conta como rege uma novela.


Mauro Mendonça Filho ensaia cena de sexo com Rodrigo Lombardi e Camila Queiroz - Bárbara Lopes
Seus pais são atores. Você nunca teve essa vontade?

Eu flertei. Fiz curso de teatro por um ano, já com o foco de entender o que poderia aprender como diretor. Aos 14 anos, era obcecado por cineastas como (o alemão) Fassbinder. No colégio, já dirigia os outros. Mesmo baixinho e pequeno, era engenhoso. Com 16, 17, comecei na assistência de direção em teatro, e aos 18 vim para a Globo fazer estágio em edição. Fui do tempo do preconceito no colégio, meu pai era o viado, minha mãe, a piranha. Mas a paixão pelo artístico é hereditária. E, no fundo, sempre serei aquele garoto que gostava de montar histórias no quarto, sacou? Agora elas ganharam cenários e orçamentos altíssimos (risos).

Quais foram suas primeiras referências? Você se lembra?

De filme é Mazzaropi, “Os trapalhões”, “Aventuras com tio Maneco” e coisas que impactaram a gente quando moleque, como “Tubarão”, “Star wars”. E por ser de família artística, meu pai nos levava para ver coisas como “Solyaris”, de Tarkovski. Saía do infantil para aquela coisa adulta difícil de ser entendida.

Era rato de cinemateca?

Eu era sócio de um videoclube próximo à minha casa fazia 25 anos. Quando eles fecharam, me deram o privilégio de ser o primeiro a comprar filmes. Comprei 150 títulos, gastei uma grana, mas com coisas raras do cinema oriental. Conheço muito sobre cinema vietnamita, coreano, que é ótimo para a TV daqui porque tem a mesma pegada emocional nossa. Em casa tenho um arsenal cultural com 3 mil títulos, é um lugar de pesquisa mesmo.

E como foi esse seu desenvolvimento dentro da Globo?

Eu era editor no Jardim Botânico. O João Paulo Carvalho, um editor ótimo, me pegou e fizemos um especial, o “Antonio Brasileiro” (1987). Eu era meio maluquinho, inventava, trabalhava de madrugada... perdi um pouco de juventude. Dennis Carvalho me chamou para ser assistente de direção de “Vale tudo”, e fiz de forma bem abusada. Aí fiz “O dono do mundo” (1991), “Memorial de Maria Moura” (1994). E o Guel Arraes me chamou para o “Comédia da vida privada”. Jovem e criativo, meu erro foi não ter sabido canalizar isso só para o trabalho. O sucesso vai transbordando, você vai se dando mal, e algumas portas começaram a se fechar. Você acha que a vida está ganha e não lida bem com fracassos. Passei por uma entressafra bem grande, de trabalhos que não funcionavam. A vida pessoal estava ótima, não a profissional. Isso pode dar um certo desespero. Aí fui fazer teatro e começou a fluir bem. Na Globo, virei diretor de núcleo tarde, se pensar que já estou aí há um tempo...

O que você acha que atrapalhou o seu trabalho?

No passado, talvez eu não soubesse lidar com autores, tivesse ansiedade de querer ser autoral demais, e isso os deixava ameaçados. Coloquei o pé no freio. A autoralidade é legal, mas a obsessão não pode ofuscar a relação com o autor. Quando relaxei, isso passou a vir à tona de forma sem conflito. Você tem que ser fiel, respeitoso, e inventar o que quiser, mas fazer coisas que acrescentem ao trabalho do autor.


O que marcou sua volta?

Relaxamento. Você tem que estar relaxado e solto. O medo de perder o fio da meada paralisa. E tive um encontro com o Roberto Talma (1949-2015). Na época de “O astro”, disseram para ele que eu estava arrebentando e perguntaram o que ele tinha feito comigo. Ele respondeu: “Eu só dei carinho.” Devo muito ao Talma.

Como nasce um trabalho?

“Verdades secretas”, por exemplo, foi assim: Eu estava em “Amor à vida” cansado da linguagem da novela, aí fui para São Paulo gravar cenas de Maria Casadevall com o Caio Castro e quis fazer umas coisas loucas. Combinei com Walcyr que faria uns improvisos, umas invenções. O Carlos Henrique Schroder (diretor-geral da Globo) adorou as cenas e disse para o Walcyr que precisava de coisas mais urbanas. Walcyr então explicou que tinha uma novela das 23h e que me queria como diretor. Eu gosto mais do Walcyr escrevendo esse tipo de história do que no tema água com açúcar. Ele faz assuntos delicados parecerem conversa de bar sem chocar. Isso, acho que é virtude minha também, pegar umas coisas heavy e transformar em algo que se encaixe no veículo.

E como funciona sua parceria com os autores?

A novela não teve sinopse. Pela nossa relação, Walcyr não quer criar ligação com o elenco, ele prefere que o diretor tenha a confiança dos atores. A gente discute personagem por personagem. Ao longo dos capítulos, trocamos uma bola. Às vezes tem uma subjetividade do personagem que a gente tem que perguntar. Temos que ter respeito à história.

Como diretor, você além de dirigir, precisa administrar. Como lida com isso?

É a parte insuportável do trabalho porque é muita gente e a cada hora um dá defeito, mas você não pode dar. Uma novela longa, que lida com a emoção, leva as pessoas a lugares diferentes. O negócio é respirar fundo. Eu durmo bem 85% dos dias, tento não me tornar vítima do ofício. Tento não alimentar discussões porque é um saco. Se o protagonista dá defeito, a gente tem que conversar. Aí o ator tem problema de saúde, na vida pessoal, afinal quem tem a vida 100% equilibrada? Você tem que chamar num canto para focar. Também existem casos de rejeições de colegas que não conseguem dar beijo no outro, não gostam de fazer cena juntos porque não se gostam. Às vezes o cara não rende, perde o personagem no meio. Às vezes, o ator está tratando mal camareiro. E isso eu não tolero. Não respeito quem puxa saco de diretor e trata mal o camareiro. Meu esquema é o da camaradagem. Gosto de gente simples no entendimento da vida, sacou? Gente que curte aquela coisa heavy, que vê maldade em tudo, não existe.

Aquela imagem do diretor carrasco ficou para trás?

É um clichê antigo, não existe mais. Esses clichês todos mudaram, até o teste do sofá... hétero!

Hétero?

Sim, as meninas já chegam com 18, 19 anos e ferram com nossas vidas, podem acabar com você, entendeu? Os meninos, os bofes, chegam e te dão uma espinafrada. Já os gays chegam com os olhos arregalados, o pessoal vai em cima direto. Mas tudo mudou, não existe mais isso de diretor déspota. Ele tem que ser um diplomata, um alquimista, um gestor com alquimia, com certa magia para transformar atores e cenas naquilo que o espectador quer ver. Se você tem aquele brilho no olhar, não precisa de tirania, somente firmeza.

Um diretor trabalha com vários autores. Como deixa sua marca nessas parcerias?

Há diretores que imprimem a mesma marca e os camaleônicos, meu caso. Não acho que a vida está dentro de mim, não preciso colocar tudo o que é meu, quero me aproximar de universos distintos. Kubrick não parece que é o mesmo cara por trás de “Spartacus”, “Laranja mecânica”. Os assuntos são diferentes, e os tons de ator têm que mudar. Ainda quero mudar radicalmente no que diz respeito às lentes. Vou começar o próximo trabalho zerado.

Você disse que voltou à forma em “O astro”. Depois fez “Gabriela”, “Amor à vida" e “Dupla identidade”. Está satisfeito?

Sabe pessoas que não se arrependem de nada? Não acredito em gente assim. Vou dormir e me arrependo de dez coisas ao longo do dia. Não acredito em não mudar de opinião. Hoje, meu grau de satisfação é grande, mas a inquietação me move. Gostaria de fazer outras coisas, até a própria “Gabriela”, queria entender mais o país, achar uma brasilidade mais tosca. Porque quando vejo Glauber Rocha acho que tinha que ter entendido mais o Brasil e a Bahia nas coisas que fiz. Duvido que um cara que monte Nelson Rodrigues no teatro ache que fez a montagem definitiva.

Você se arrepende da caracterização da Juliana Paes?

Nem um pouquinho, sendo honesto. Me arrependo mais da escalação da Giulia Gam em “Dona Flor e seus 2 maridos”(minissérie de 1998). Gabriela é um símbolo feminino. E quando pessoas veem tal figura como símbolo, não adianta querer mudar. Gabriela tinha 26, Juliana tinha 32, mas Gabriela não é ninfeta, nunca foi. Juliana fez suuperbem, com leveza, é símbolo sexual queira ou não. Ela e o Humberto (Martins) faziam bem, se não arrebatou o público é outra questão.

Fazer novela no horário das 23h foi complicado?

Quando peguei o horário, concluí que precisava de algo a mais, um comportamento politicamente incorreto, sexualidade, violência e um pouco de porra-louquice. O horário está mudando, ajudado pelo Zé Luiz (José Luiz Villmarim) em “O rebu”. Ele deixou uma batata-quente na nossa mão. O horário está migrando para uma renovação de linguagem, o que é legal. “Verdades secretas” eu fiz sem cortes, ela inteira com duas câmeras no estúdio. É uma novela mais artesanal e sofisticada que deu certo.

O beijo gay de “Babilônia” foi muito criticado. Para você, o que faz o espectador aceitar “Verdades secretas”, novela com temática forte?

Nossa função é seduzir. Tento seduzir com muitas coisas e não consigo. O público conservador sempre esteve aí. Qualquer trabalho tem que dialogar com os dois tipos de espectador. O Brasil não é avançado. Depois do beijo de “Amor à vida”, o erro foi achar que tínhamos chegado a outro lugar. A gente faz uma novela da pá virada, só que os conservadores veem como denúncia e espaço para a própria fantasia. Nenhum ser humano fica sem fantasia, a ficção está aí para isso. Ao mesmo tempo, tem a coisa liberal da novela que agrada.

O que “Amor à vida” acrescentou à sua carreira?

Tenho o maior orgulho de ter dirigido uma cena como essa e de vê-la marcada na teledramaturgia como um divisor de águas. Não querendo ser piegas, mas tem uma hora que o trabalho migra daquela função vazia de entreter para fazer uma espécie de bem, sacou? Eu, o Walcyr e a empresa soubemos três meses antes, os atores, com um mês. Chamei o Mateus Solano e o Thiago Fragoso e pedi que se jogassem. Eu mesmo me livrei de muito preconceito. É tudo muito igual, paixão, sentimento, desejo. Foi uma grande sacada do Walcyr, porque lá no capítulo 30/40, percebemos que o casal principal não tinha funcionado. Aí ele antecipou uma cena bem homofóbica do César (Antonio Fagundes) com o filho do capítulo 120 para o 55. Gravando, percebi que nossa nova trama principal estava ali. O beijo começou com Fagundes e Mateus e acabou com eles.


Vocês gravaram três versões do beijo, certo?

Não. Quatro. Só que um era uma bitoca rápida que nem mostrei à direção. No dia do último capítulo, eu, Wolf Maya (diretor de núcleo) e Walcyr mostramos as opções. Começamos do heavy ao mais leve. Eles pularam da cadeira e disseram que não estava aprovado. Voltando para casa, me ligaram. Voltei para a edição.

Como foi sua experiência em “Dupla identidade”?

Se você liga a TV nos Estados Unidos, percebe que não há diferença entre a imagem do canal aberto e a do canal fechado. A Globo descobriu isso tardiamente, mas a tempo. E me encomendou um seriado que não poderia dever nada aos lá de fora. Fiz uma lista de dez regras básicas que diferenciam uma novela de uma série. Exemplo? Se na novela, um diretor de hospital pode comer a secretária, na série o que importa é que ele entenda de medicina. Novela tem narrativa oral, é didática, série não. Ensaiei por 50 dias. Trabalhamos intensamente para que Bruno (Gagliasso) chegasse no lugar da psicopatia que era estranho. É macabro, bem macabro. Queria Edu com olhar que atravessasse, como se só visse carne nas mulheres. E ele foi, né? Eu não quero desistir da segunda temporada. A grande virtude é mudar o psicopata.

Você já fez novela ruim?

Ahhh, já fiz novela ruim, sim. Quando percebe que está num fracasso no capítulo 30 e ainda tem 190 pela frente é um desespero, vira sistema. Aí você sobrevive de cinismo.



http://oglobo.globo.com/cultura/revista-da-tv/diretor-de-verdades-secretas-fala-da-tematica-forte-da-novela-das-23h-nenhum-ser-humano-fica-sem-fantasias-17405284?utm_source=Twitter&utm_medium=Social&utm_campaign=compartilhar