segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Jefferson Balbino entrevista João Emanuel Carneiro para o No Mundo dos Famosos

Hoje eu entrevisto aqui “No Mundo dos Famosos” o autor da nova novela das nove, “A Regra do Jogo”, que estreia hoje na tela da Globo. Meu entrevistado é um dos maiores gênios da teledramaturgia brasileira. Ele é o principal responsável por toda essa inovação que vem ocorrendo no gênero e a cada novela que escreve comprova a teoria que ele é a Janete Clair de calças dessa geração de novelistas. A “Entrevista Especial” de hoje é com o mega talentoso novelista JOÃO EMANUEL CARNEIRO.

“Acho que o fato das minhas novelas serem muito exportadas lá fora e terem feito muito sucesso aqui [no Brasil] me instiga a fazer um trabalho cada vez melhor. E, é isso que eu tenho procurado fazer!”

(João Emanuel Carneiro)

Jéfferson Balbino: João, você começou sua carreira como novelista colaborando com a nossa querida Maria Adelaide Amaral nas minisséries “A Muralha” e “Os Maias”, ambas de época. Você cogita a possibilidade de escrever uma novela de época?

João Emanuel Carneiro: Eu acho legal novela de época, mas nunca me interessei por escrever uma...

Jéfferson Balbino: Hoje estreia sua nova novela, “A Regra do Jogo”, como surgiu a idéia de escrever a nova novela das nove da TV Globo?

João Emanuel Carneiro: A história gira em torno do personagem Romero Rômulo e a idéia de fazer esse homem veio da minha mãe que faleceu há pouco tempo e que sempre me pedia para escrever a história de um santo, já que ela era muito católica.

Jéfferson Balbino: Então podemos definir o Romero, o protagonista de “A Regra do Jogo”, como um santo?

João Emanuel Carneiro: Ele é um santo torto (risos)...

Jéfferson Balbino: Todas as suas vilãs tornaram-se criaturas inesquecíveis para o Brasil inteiro, foi assim com a Bárbara de “Da Cor do Pecado”, com a Leona de “Cobras & Lagartos”, com a Flora de “A Favorita” e com a Carminha de “Avenida Brasil”. A vilã Atena, de “A Regra do Jogo”, irá por todas no ‘chinelo’ ou seguirá o mesmo nível de vilania (risos)?

João Emanuel Carneiro: Não conto (risos), vão ter que assistir e descobrir!

Jéfferson Balbino: A sua novela, assim como foi à antecessora no horário, no caso “Babilônia” terá um núcleo de personagens ambientados numa favela. Você acredita que toda novela das nove tem como missão retratar algum aspecto sociocultural?

João Emanuel Carneiro: Costumo dizer sempre que o meu compromisso é com a dramaturgia e nunca com as questões sociais.

Jéfferson Balbino: E você se inspirou em alguma comunidade carioca para criar o Morro da Macaca?

João Emanuel Carneiro: O Morro da Macaca é um morro inventado, fictício. Era um morro menor, mas confesso que foi um pouco inspirado no Vidigal.

Jéfferson Balbino: E como está sendo ter a nossa querida Amora Mautner como diretora de núcleo de sua novela?

João Emanuel Carneiro: Está sendo ótimo, pois temos uma grande sintonia.

Jéfferson Balbino: O fato de suas novelas serem as mais exportadas da história da TV Globo implica uma responsabilidade maior que força “A Regra do Jogo” superar o fenômeno que foi “Avenida Brasil”?

João Emanuel Carneiro: Acho que o fato das minhas novelas serem muito exportadas lá fora e terem feito muito sucesso aqui [no Brasil] me instiga a fazer um trabalho cada vez melhor. E, é isso que eu tenho procurado fazer!

Jéfferson Balbino: E quais surpresas o público pode esperar já nesse primeiro capítulo de “A Regra do Jogo”?

João Emanuel Carneiro: Não vou contar, vocês terão que assistir o primeiro capítulo para conferir (risos).

Jéfferson Balbino: Como você define a novela “A Regra do Jogo”?

João Emanuel Carneiro: Como uma história que mostra o limite do certo e o errado, do bem e do mal. Do até que ponto você pode estar certo ou estar errado? E isso permeando os vários personagens.

Jéfferson Balbino: Querido, obrigado por conceder essa entrevista ao “No Mundo dos Famosos”. E todo o sucesso do mundo para “A Regra do Jogo”, abraço!

João Emanuel Carneiro: Obrigado...

Link http://www.nomundodosfamosos.com.br/entrevista_especial_1.html

João Emanuel Carneiro é entrevistado por Lígia Mesquita para a Folha De São Paulo


João Emanuel Carneiro, 45, "acha" que já conseguiu entrar para o seleto viveiro das "seis ararinhas azuis", como o colega Aguinaldo Silva define os novelistas, "espécies raras e em extinção", donos do horário nobre na Globo.

"É um lugar nada garantido. Se você se fiar nisso, tá ferrado", afirma ele à Folha, em um restaurante na orla de Ipanema, no Rio de Janeiro.

Três anos após o fenômeno "Avenida Brasil", que além de ótima audiência gerou o maior burburinho da última década na teledramaturgia e foi vendida para 134 países -um recorde-, Carneiro retorna ao ar nesta segunda (31) com "A Regra do Jogo".

A trama das nove, com direção de Amora Mautner, tem a missão de recolocar a audiência na casa dos 30 pontos no Ibope -na Grande São Paulo, cada ponto equivale a 67 mil casas. Com índices abaixo dessa média, a antecessora "Babilônia" foi encurtada em dois meses.

A novela, um thriller, parte da premissa filosófica do que seria o certo e o errado. O protagonista, interpretado por Alexandre Nero, é um bandido que se vende como bom moço (tem uma ONG de fachada) e se apaixona pela ideia de se tornar santo.

O autor vê na trama um paralelo com o momento político atual do Brasil. "Me fascina o caráter das pessoas. Até que ponto elas podem ir, se redimir", diz. "Brecht falava que quem tem fome não pode ter moral. Nós brasileiros somos coluna do meio muitas vezes, perdoamos muito."

Também se mostra disposto a "olhar em volta" ao retratar o país. Para ele, a classe C "já foi plenamente contemplada" pela TV brasileira, ao contrário das classes A e B.

"Quando fiz 'Avenida Brasil', tinha a reflexão de que as tramas tratavam a elite sempre igual, o 'rico de novela. Aquela 'mansão da milionária' não mais retrata o Brasil."

Leia as respostas de Carneiro para a Folha.

*

Novela masculina
É minha primeira novela centrada num homem. O Romero Rômulo [Nero] é um santo torto. É alguém que quer tentar se emendar, se acertar. A novela é a trajetória dele, pendendo entre o bem e o mal.
"Avenida Brasil"

Temo comparações, mas não é algo fundamentado. Elas são totalmente diferentes. O medo de ser rejeitado e ser chato tem que acompanhar a gente o tempo todo. Se você perde esse medo, tá ferrado.

A grande coisa da novela é inventar um brinquedo novo pra mim. O que eu já fiz não tem graça. Não existe métier. Cada vez você é posto à prova.

Rico de novela
A classe C já foi plenamente contemplada há anos. A gente vive num país que é classe C. Ponto. Já é. Se a TV errou em algo, foi em não contemplar mais as classes A e B. Este público quer ver coisas passadas no Brasil, e em português.

Quando fiz "Avenida Brasil", uma reflexão que tinha é que as tramas tratavam a elite sempre igual, o "rico de novela". Aquela "mansão da milionária" não retrata mais o Brasil. Tem que olhar em volta.

Sem improviso
Iniciamos o processo da novela há dois anos. Não creio na mitificação do improviso, em que antigamente a TV se baseava, com testes de elenco feitos com a novela no ar. "Da Cor do Pecado" [2004] estreou com 80 episódios prontos.

Público inteligente
O público é mais inteligente do que a gente imagina. Menosprezá-lo é o maior erro. É como uma criança: se você leva-la ao Museu do Prado, ela vai adorar aquelas pinturas. Se só leva ao parque de diversão, só vai conhecer aquilo.

Inovação
As minhas novelas têm a volta para uma estrutura de narrativa mais antiga, mas com personagens contraditórios. Inovar não tem que ser uma preocupação. A novela é quase um serviço público, pertence a quem vê. Você passa a fazer sucesso quando começa a se conectar com as pessoas, e não fazer o que elas esperam.

Audiência
O Brasil ainda vê muita TV. Assim como houve a saída para a internet, pode haver uma volta para a TV aberta.

Acompanho a audiência, mas não fico refém. Minhas histórias principais nunca mudaram, mas já mexi em paralelas. Em "A Favorita" [2008], quando a Lilia Cabral apanhava, aumentava a audiência. Ela apanhou muito [risos].

Se me pedissem para alterar a história [por baixa audiência], falaria para mandar alguém escrever. Bateria o pé.

Autocensura
Tem um bom senso quando pensa que entra na casa de 40 milhões de pessoas. Não boto palavrão, personagem fumando cigarrinho, tomando uisquinho de dia. Vão reclamar. Poderia subverter isso, mas aí tem classificação indicativa.

Cedo em algumas coisas para ter outras maiores, como abordar temas mais complexos.

Exportação de folhetim
"Avenida Brasil" tem "plot" original. Uma coisa que a ficção brasile
Exportação de folhetim
"Avenida Brasil" tem "plot" original. Uma coisa que a ficção brasileira não faz bem é drama. A América Latina é o lugar do drama, é a lágrima.
Minhas novelas têm trama central forte e pouco personagem. Quando tem uma novela com cem personagens, sem uma história forte, fora do Brasil você não tem nem leitura.

Comunidade fictícia
Disseram que o subúrbio [de "Avenida Brasil"] não existia em lugar nenhum, só na minha cabeça. E é verdade, é ficção. Para o Morro da Macaca, de "A Regra do Jogo", não ambiciono nada muito realista nem documental. É uma favela que deu certo, com turistas, classe média indo morar lá. É a alegoria de como vejo essa favela, a classe média, o asfalto, os ricos do Rio.

Pen drive da Nina
Sou paleolítico da internet. Foi um escorregão, tive muita vergonha [em "Av. Brasil", Nina perde as fotos impressas que usava para chantagear Carminha, sem ter cópia num pen drive]. Fiz um curso e na novela vai ter hacker, nuvem.

Merchan social e polêmicas
Se for da trama, pode ser que eu aborde algum tema polêmico. De fora para dentro ter que discutir determinados temas me parece programático, engessa a história.

Mas como quase todas as novelas já se dedicam tanto a fazer esse tipo de polêmica, as minhas podem se dedicar a falar de temas novos para as pessoas, dinâmicas, conflitos novos. Eu como espectador não me seduzo tanto por polêmicas programáticas.

Como vê o Rio
Sou carioca. O Rio é um balneário com muita herança, já foi um império, tem um passado glorioso. E onde a ideia de trabalho é muitas vezes um insulto, as pessoas vão se virando. A relação pessoal é tão importante, estar na festa é tão importante.

E tem isso tanto na favela quanto no asfalto. O núcleo do personagem do Marcos Caruso vai mostrar um pouco isso, ele é um bon vivant decadente.

Gênero policial
Eu amo romance policial, coleciono todas revistas de literatura policial. Aí escolhi fazer um thriller desta vez. Mas em sempre humor também, drama.

A novela é uma composição variada, é como uma refeição para a família. Tem que ter arroz, feijão, carne, uma farofa, uma salada. Não posso fazer um capítulo inteiro de thriller.

Processo criativo
Eu tenho os movimentos dos personagens para cada uma das 28 semanas. Posso ter ideias melhores, mudar o que já tenho. Mas eu já tenho.

Os personagens falam na minha cabeça, só consigo escrever as cenas a partir dos diálogos, escrevo todos. Os colaboradores [Alessandro Marson, Antonio Prata, Claudio Simões, Fabio Mendes, Paula Amaral e Thereza Falcão ] podem arredondar, colocar uma fala, dar um sabor.

É um trabalho de chinês aposentado, uma maneira antiga de se fazer novela. Não sei delegar muito.

LINK http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/08/1675453-tv-erra-em-nao-contemplar-mais-a-elite-diz-joao-emanuel-carneiro.shtml

domingo, 30 de agosto de 2015

Revista Época entrevista João Emanuel Carneiro

João Emanuel Carneiro, de 45 anos, recebeu ÉPOCA numa sexta-feira ensolarada que levou turistas a tomar espumantes na pérgula do Copacabana Palace. O autor da próxima novela da TV Globo, A regra do jogo, que estreará nesta segunda-feira, dia 31, morou numa das suítes do hotel de Copacabana quando um de seus imóveis (não revela quantos) estava sob reforma. Ele estava, portanto, quase em casa, quando deu esta entrevista. Consagrado como o autor de dois dos maiores sucessos da TV Globo, Avenida Brasil (2012), vendida para 106 países, e Da cor do pecado (2004), 100 países, ele tem a missão de superar os baixos índices de audiência de Babilônia, a atração do momento na faixa das 9 horas.  Mesmo contando com seis colaboradores na construção de sua narrativa, Carneiro trabalha dez horas por dia. Em A regra do jogo, quase todos os personagens transitam no limiar ético entre o bem e o mal – e o protagonista é um anti-herói de esquerda. Carneiro diz que se inspirou, em parte, na atual crise vivida pelo país.

O MOMENTO DO BRASIL 
João Emanuel Carneiro, no Copacabana Palace, onde já morou. “Criei um anti-herói de esquerda com uma ética duvidosa” (Foto: Andre Arruda/Epoca)
ÉPOCA – Como o senhor está vendo o Brasil hoje? A crise do país está inserida em sua novela?
João Emanuel Carneiro – O protagonista Romero Rômulo (personagem do ator Alexandre Nero) é uma figura bastante complexa e contraditória. É um ativista social ongueiro que recupera marginalizados. Só que, apesar disso, pairam dúvidas sobre seu caráter. A novela toda trata dessa sombra, dessa dúvida sobre o caráter das pessoas. A começar pelo do protagonista. Até que ponto esse homem quer o bem dos pobres? Está se aproveitando deles? É ou não um bandido? Tem tudo a ver com este momento brasileiro. Passei por uma banca em Ipanema e as capas de revistas eram todas sobre ética, com nossos heróis de esquerda presos. Romero é de esquerda com uma ética duvidosa.

ÉPOCA – O senhor discute ética e moral com muita frequência em suas novelas. É proposital?
Carneiro – Em A regra do jogo, a discussão é no sentido mais abrangente e político. Por mais que não estejamos falando de pessoas reais, já que a novela fala de um microcosmo ficcional, ela reflete a realidade. O escritor tem de ter uma antena mesmo, algum tipo de percepção.

ÉPOCA – O senhor escreveu depois das manifestações de 2013? Elas o influenciaram de alguma forma?
Carneiro – A questão ética da esquerda que tomou o poder e é ou não ladra é uma questão que vem  nos acompanhando há muitos anos, não é? Não diria que me motivou. Não é encomenda dessa situação. Novela é um bordado, parte de um elemento. Começou assim com o Romero. Tenho esse cara, que ninguém sabe se é bom ou se é mau. Aí tem uma mulher que é boa, Tóia (personagem de Vanessa Giácomo). E tem uma que é má, Atena (Giovanna Antonelli). Tóia e Atena são os dois lados de Romero Rômulo, como se fossem um anjinho e um diabinho. As duas são úteis porque ele se apaixona pela ideia de que há quem o idealize e o idolatre como herói do povo.

ÉPOCA – O senhor estreou como autor com a novela Da cor do pecado e a difícil missão de levantar a audiência do horário das 7 horas. Terminou com excelentes 43 pontos de média geral. Agora precisa levantar a audiência das 9 horas, que caiu muito com Babilônia. Como o senhor lida com essa pressão?
Carneiro – Olha, todas as novelas que fiz foram sucesso de audiência. Então, eu não tive de lidar com um problema de ter de mudar a novela porque foi um fracasso. Até hoje. Ao contrário, peguei audiência baixa e levantei. Rezo para Deus para continuar assim. Novela tem uma coisa. A gente faz a melhor história possível, o melhor que você pode imaginar. Mas existe o imponderável. Só o Altíssimo pode nos ajudar (risos).

ÉPOCA – Mas não há pressão neste momento? Afinal, são muitas pessoas envolvidas na produção de uma novela.
Carneiro – Toda a imprensa diz que a Globo impõe questões para mim. Mas não tem nada disso. Nem artístico, nem tema encomendado, nada. Nunca ouvi isso. O segredo do sucesso da TV Globo é esse. As pessoas têm liberdade para apresentar coisas. Há uma autoralidade que não há nas novelas latino-americanas. A pressão existe quando a novela vai ao ar. Basicamente, tem de dar certo. É isso, não é? É muito cruel, duro, porque é uma expectativa enorme em cima de uma pessoa.

ÉPOCA – O senhor trabalha com colaboradores. Como se dividem?
Carneiro – Eu concentro muito o trabalho. A novela não é uma obra coletiva, não deve ser feita em grupo. É a criação individual de uma pessoa, de um autor. E colaborador é... colaborador. Trabalho dez horas por dia. A tendência das novelas hoje em dia é serem feitas por um grupo de pessoas porque são grandes demais. Um capítulo tem 33 laudas. Supõe-se que eu faça um capítulo por dia, com inspiração. É uma coisa maluca. Faço mais capítulos antes de estrear para não fazer seis por semana. Eu estoco. Depois faço dois, três capítulos semanais com a novela no ar.

ÉPOCA – Suas novelas têm poucos personagens. Boa parte dos autores precisa escrever para mais de 100 atores. O senhor barganhou essa situação?
Carneiro – Não, eu faço com quantos quiser. É que eu só consigo falar com 30 personagens por semana. Não consigo falar com 100. Essa questão de 100 personagens tem a ver com esse processo de escrita. Como há muitas pessoas escrevendo diversos núcleos, vai virando essa coisa gigante.

ÉPOCA –  O senhor escolhe os atores de suas novelas? Ou a indicação vem de cima?
Carneiro – Eu e a diretora, Amora Mautner, escolhemos o elenco inteiro, e também a trilha sonora. O autor de uma novela tem uma função criativa, mas também um pouco administrativa. É uma função de produtor.

ÉPOCA – Como os seleciona?
Carneiro – Como em minhas novelas há poucos personagens, trabalho com perfis específicos. Por isso, eu vou atrás, abordo, vou procurar quem me interessa. Comigo, não há um balcão. Não escrevo para atores, entende? Mas, naturalmente, os talentos aparecem.

"Novela é uma possessão. Há horas
em que os personagens falam coisas em seu ouvido” 

ÉPOCA – O público que assiste a novelas, nas TVs abertas, é mais conservador? Como o senhor mantém a liberdade criativa tendo de atender uma audiência reticente a temas mais heterodoxos?
Carneiro – Acho que o público não é conservador. Conquistá-lo com algo novo depende muito da forma como você vai tratar determinadas questões na dramaturgia, tendo o cuidado de perceber como o telespectador vai assimilar. O público de televisão, conservador ou não, é como se fosse uma criança. Como criança, ele está sempre propenso a aceitar o que vem para ele. A TV entra na casa das pessoas de graça, como um brinquedo entra no quarto de uma criança. Você consegue vender qualquer coisa para esse público se souber vender.

ÉPOCA – É preciso então educar o público?
Carneiro – Uma criança pode fazer birra. É uma negociação. Tem de se impor de uma maneira amistosa. Tanto que fiz novelas que foram consideradas ousadas, como A favorita, em que não se sabia quem era a heroína até metade da novela. Como a Flora (Patricia Pillar), pobre, poderia ser a vilã? Se toparam aquilo...

ÉPOCA – Todas as histórias já foram contadas?
Carneiro – Concordo. Com a ressalva de que em A regra do jogo vou contar a trajetória de um anti-herói de esquerda. Acho que essa história foi pouco contada. Não vi por aí, não.

ÉPOCA –  O senhor é simpático à esquerda?
Carneiro – Não sou uma pessoa política, não. A crise econômica que estamos vivendo é uma coisa dramática. Claro que chega para mim, mas não sou politicamente ativista para nenhum lado. Sinceramente. Estou fazendo uma autocrítica aqui. Não sou uma pessoa que se manifesta. Nem Facebook eu tenho. Não gosto, acho perda de tempo.

ÉPOCA – Quando não faz novela, o que faz?
Carneiro – Ah, prefiro ir à praia. Ou ler.

ÉPOCA – Por que contar histórias?
Carneiro – Contar histórias é uma imposição e uma necessidade. Novela é uma possessão. Há horas em que os personagens falam coisas em seu ouvido. É uma convivência com pessoas invisíveis. Quando acaba, vão todos embora. É uma coisa esquisitíssima. A casa fica vazia. 

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Daniel Castro entrevista Ricardo Linhares para o Notícias da TV

Para Ricardo Linhares, coautor de Babilônia, a novela das nove que se encerra nesta sexta-feira (28) foi vítima de um "julgamento moral" em uma "TV aberta defasada". Pior audiência da faixa das 21h, a produção não foi recusada por falta de qualidade ou por valores artísticos, mas por ousar tocar em temas espinhosos e relevantes, como corrupção, religião e homossexualidade. "É importante não confundir audiência com qualidade. Senão, Chaves seria uma obra-prima. Nós tivemos um julgamento moral, como se o tema pudesse abalar os valores tradicionais familiares", diz.

Em entrevista exclusiva ao Notícias da TV, por e-mail, Linhares toca em um ponto nevrálgico. O telespectador brasileiro é conservador, não quer ver duas senhoras se beijando na TV com a netinha ao lado. E a televisão não conseguiria mostrar uma trama como a da série norte-americana Empire, estrelada por negros que produzem hip hop e que trata com naturalidade dois homens na cama. "A TV aberta brasileira está defasada", conclui.

Notícias da TV - Qual o balanço que você faz de Babilônia? O público te decepcionou?

Ricardo Linhares - Tratamos de assuntos relevantes como corrupção, impunidade, mistura de política e religião, racismo, homossexualidade, intolerância, novas formações familiares, conflitos sociais. Foi uma trama ousada e anticonvencional. Uma novela forte e marcante, líder de audiência no país. Tivemos um público fiel e entusiasmado e uma excelente repercussão nas redes sociais. Desde a estreia, as manifestações positivas sempre foram maiores do que as negativas, embora as críticas façam mais barulho do que os elogios.

Qual teria sido o erro capital da novela para o público que mudou de canal? Foi no primeiro capítulo, já que a audiência foi boa e nunca mais se igualou?

O público que mudou de canal foi, percentualmente, pequeno. Por exemplo: aproximadamente 2% foi para uma emissora, 2% foi para outra. Nos dois grupos de discussão realizados, e que eu acompanhei, a novela foi reconhecida como boa e forte.

Entre as espectadoras que diziam não acompanhá-la, não havia rejeição artística e, sim, aos temas abordados. Ninguém dizia que a novela era ruim, mal escrita ou mal realizada. Diziam que a vida estava muito difícil e que preferiam uma diversão mais leve. Esta parcela do público dizia não querer assistir aos mesmos assuntos tratados pelo noticiário (a sinopse foi escrita em 2013; fomos premonitórios, na época não havia Petrolão nem Lava-Jato), tampouco ver o beijo gay de Teresa [Fernanda Montenegro] e Estela [Nathalia Timberg], pois eles não poderiam assistir à novela com filhos pequenos, e consideravam mal exemplo para os jovens a trama que mostrava o cafetão seduzindo a ingênua moça de família classe média.

A temática afastou uma parcela pequena da audiência, mas que fez a diferença para a novela não atingisse os mesmos índices da antecessora.

Na sua opinião, por que Babilônia não foi um grande sucesso (vamos combinar que também não foi um fracasso...)?

Como alguém pode chamar de fracasso o programa mais assistido da televisão brasileira atualmente? Perdemos umas cinco ou seis vezes na época da estreia de I Love Paraisópolis, que é uma ótima novela. Já aconteceu dezenas de vezes um capítulo ou outro de uma novela das 19h ter mais audiência que a novela das 21h. Não há nada de inédito nisso.

Após essa oscilação, nunca mais perdemos a liderança. Mas manchetes negativas chamam mais a atenção. A repercussão positiva do público e nas redes sociais sempre foi muito maior do que comentários negativos.

No conjunto da obra, Babilônia foi o programa mais assistido da TV no período. Nossos números seriam considerados espetaculares em qualquer país civilizado, onde há pulverização da audiência. No Brasil, ainda persiste o hábito de uma novela atingir o público de 8 a 80 anos, de todas as camadas socioculturais. Acho que isso será cada vez mais difícil. Na minha opinião, a segmentação é a nova realidade da TV. Crianças assistem às novelas infantis; para quem procura escapismo há tramas fantasiosas; quem curte documentários e programas jornalísticos os encontra em canais temáticos. A segmentação acontece em todo o mundo. É normal e saudável.

Você se arrepende de ter atendido aos desejos manifestados por telespectadoras nos grupos de discussão? Babilônia seria muito diferente se não fossem essas mudanças? Hoje, olhando em perspectiva, você acha que a audiência poderia ter sido melhor sem as alterações?

Todo programa de TV pertence ao produtor. A novela não é do autor da sinopse. É da emissora. Da mesma forma, no cinema comercial a palavra final é do produtor do filme, não é do diretor ou do roteirista. O novelista não é dono da obra, embora muitos não assumam isso publicamente, talvez por questão de vaidade.

Se houvesse a figura do showrunner [principal produtor e/ou criador e/ou roteirista de uma série] na TV brasileira, esse quadro poderia ser diferente. Mas não há. E, mesmo que houvesse num seriado ou minissérie, seria muito difícil numa telenovela pelas dimensões do programa. Na novela das 21h, são 35 páginas por capítulo, de seis a oito meses no ar. É uma obra aberta e coletiva sujeita a todo o tipo de influência. Em Babilônia, nós cumprimos todas as determinações do produtor.



Você diria que os autores de Babilônia tentaram inovar, mas que o público de telenovela continua muito conservador, ainda quer mocinha e mocinho puros?


Há um seriado americano badalado chamado Empire. Faz sucesso nos Estados Unidos, mas seus números seriam considerados um fiasco no Brasil. Lá, vai ao ar na Fox, TV aberta. No primeiro episódio, há um beijo gay, tratado com naturalidade. No segundo episódio, há cena de cama entre dois homens.

Em How To Get Away With Murder, também exibido na TV aberta americana, um dos protagonistas é gay, e não faltam cenas de beijo e transa com seus parceiros. Aliás, a protagonista é negra.

O elenco de Empire é majoritariamente negro, e o pano de fundo da trama é o hip hop. Será que faria sucesso no horário nobre da TV aberta brasileira? Já imaginou um programa semelhante só com atores negros e falando de funk às 21h?

A TV aberta brasileira está defasada. O público brasileiro é conservador. Não é por isso que devemos ter medo de ousar. Eu acho que a telenovela deve entreter, mas a história deve também propor a discussão de temas importantes, refletindo o momento que a sociedade vive. A temática forte misturando corrupção, religiosidade, hipocrisia, gays, prostituição e racismo incomodou uma parcela pequena mas ruidosa do público. Porém, foi aprovada pela maioria.

Curtir ou não um folhetim é uma coisa subjetiva, que depende do gosto de cada um. Mas é importante não confundir audiência com qualidade. Senão, Chaves seria uma obra-prima. Nós tivemos um julgamento moral, como se o tema pudesse abalar os valores tradicionais familiares, não tivemos rejeição artística. Em meio a tantas polêmicas, Babilônia foi marcante. Mas, no frigir dos ovos, uma novela é apenas uma novela.

sábado, 15 de agosto de 2015

Lígia Mesquita entrevista Alcides Nogueira e Mario Teixeira para a Folha

Os autores de “I Love Paraisópolis” (Globo), Alcides Nogueira (à esq. na foto) e Mario Teixeira, contam à coluna que a ideia de retratar essa comunidade vizinha ao bairro de alto padrão Morumbi, em São Paulo, era apresentar “mais as semelhanças do que as diferenças” entre esses universos.

Perto do capítulo cem dos 155 previstos, nos próximos dias a trama das 19h promete novidades, como o casamento dos protagonistas Mari (Bruna Marquezine) e Ben (Mauricio Destri).

“Temos preocupação em não deixar que a novela tenha barriga, se arraste”, diz Nogueira. “Nossa novela é tanquinho”, fala Teixeira.


Há críticas de que a favela mostrada é idealizada.

Mario Teixeira – Mostramos a realidade de forma contundente. Tratamos de assuntos importantes, tem Alzheimer, racismo, busão lotado. O que não fazemos é jogar um facho de luz no lado negativo. Mostramos os problemas de forma sarcástica. A comédia é a melhor alegoria da realidade.

Alcides Nogueira – É idealizada porque o horário tem classificação indicativa. Mas mostramos coisas por meio de signos, personagens reclamando de dinheiro, bandido cobrando pedágio.

Era uma preocupação todos personagens terem função?

Nogueira – Ninguém tá lá pra servir cafezinho. Se vamos falar de uma comunidade, todos têm ação.
Teixeira – Temos horror de personagem sem função dramática. Todos têm uma.

A novela tem sete negros no elenco e aborda racismo sem fazer merchandising social.

Nogueira – Não precisa fazer isso, é chato. A Soraya [Letícia Spiller] disse ‘Tinha que ser preta’ e foi processada. A gente prefere colocar o racismo na ação do que falar “é crime, artigo tal etc.”

Teixeira – A Lucy Ramos, que faz a psicóloga Patrícia, disse que é a primeira vez que não é escrava nem criada em novela. Quando sua personagem é chamada de morena, ela diz: sou preta! A ação funciona mais.

Era uma preocupação todos personagens terem função?

Nogueira – Ninguém tá lá pra servir cafezinho. Se vamos falar de uma comunidade, todos têm ação.
Teixeira – Temos horror de personagem sem função dramática. Todos têm uma.

A novela tem sete negros no elenco e aborda racismo sem fazer merchandising social.

Nogueira – Não precisa fazer isso, é chato. A Soraya [Letícia Spiller] disse ‘Tinha que ser preta’ e foi processada. A gente prefere colocar o racismo na ação do que falar “é crime, artigo tal etc.”

Teixeira – A Lucy Ramos, que faz a psicóloga Patrícia, disse que é a primeira vez que não é escrava nem criada em novela. Quando sua personagem é chamada de morena, ela diz: sou preta! A ação funciona mais.

A partir do capítulo cem mudará muita coisa?

Nogueira –A gente tem preocupação grande em não deixar que a novela tenha barriga, se arraste.
Vimos que não havia como não fazer o casamento de Ben e Mari no meio da novela, então vamos fazer. E daí vão surgir outras ações. Na teledramaturgia antiga, a gente tinha um pouco de medo de soltar história. Hoje não tem mais esse medo.
Solta, porque a coisa vem. E o telespectador fica ligado.

Teixeira- A nossa novela não tem barriga, é tanquinho (risos). Nos tempos atuais não dá mais pra enrolar o telespectador, né?
A revelação de quem era o pai de Mari aconteceu na segunda ou terceira semana da novela. A gente acredita que ação desencadeia mais ação.

É difícil escrever humor?

Nogueira – Muito difícil. Humoristas são sofredores. Nos tivemos o privilégio de pegar um elenco de comediantes bons. A Tatá Werneck é um escândalo, é humorista fantástica.

Teixeira – O humor não pode nunca deixar de levar em consideração a inteligência do sujeito que tá do outro lado. Se isso acontecer, aí ele fica idiotizado.

Vocês têm preocupação em não subestimar o telespectador?

Teixeira- E também em não superestimar, colocar na medida certa.

Nogueira- Vamos tateando até encontrar a medida.

Até porque existe uma coisa que só no Brasil acontece, o espectador brasileiro tem profundo conhecimento de teledramaturgia. Tudo que não sabe de teatro, sabe de tevê.

Teixeira – E hoje mais do que nunca não compra gato por lebre.

O Grego (Caio Castro) é vilão mesmo? A gente vê ele cometer crimes, mas ele tem um lado bem leve, ouve sempre a tia Paulucha (Fabiula Nascimento).

Teixeira- Essa confusão se dá na vida real, muitos bandidos em comunidades têm esse lado Robin Hood. Eles ajudam a comunidade, exploram absurdamente, mas distribuem cesta básica, fazem serviço social.
O Grego é vilão terrível, manda roubar carro, detonou um salão de cabeleireiro porque não pagava a taxa de proteção dele.
Nogueira- O conceito de família dele é meio algo da máfia. Ninguém mexe com a tia, ele dá bronca no primo.


Acompanham a novela pelas redes sociais? Prestam atenção nas opiniões dos telespectadores?

Teixeira- É importante ressaltar que esse tipo de opinião não influencia em nada na novela, na nossa narrativa.

A novela é algo extremamente popular. E o grosso do telespectador não se manifesta a esse ponto nas redes sociais, exigindo isso e aquilo. Acho que a maioria quer se divertir.

É que tá na moda dizer que o Ibope, a audiência, determina a novela, que fulano aproveita determinado personagem porque aí a novela vai e encontra seu eixo, acho que é o contrário.

O público gosta de ser surpreendido, não quer quer aconteça as coisas do modo como está esperando.

Nogueira- Eu não acompanho a audiência minuto a minuto, só nos intervalos.

Essa história de falar que entra personagem e o ibope cai é conversa. O cara pode ter levantado pra fazer xixi…

domingo, 2 de agosto de 2015

Manoel Carlos é entrevistado pelo blog Agora é que são eles

Manoel Carlos é mestre em escrever sobre o comportamento humano. Nenhum autor consegue captar tão bem os anseios da alma feminina, descrever o cotidiano da família brasileira e falar de forma tão direta e com tanta sensibilidade sobre os dramas do amor e da vida.

Autor de sucessos como A Sucessora, Baila Comigo, História de Amor, Por Amor, Laços de Família, Presença de Anita, Mulheres Apaixonadas, Páginas da Vida e Maysa – Quando Fala o Coração, o escritor concedeu uma ótima entrevista ao nosso blog. Sem meias palavras, responde de forma bem direta e corajosa, sem se deixar intimidar, até mesmo as perguntas mais capciosas feitas pela nossa equipe. 

Maneco abre as páginas de uma carreira de muito sucesso e algumas polêmicas para o Agora é Que São Eles, brindando nosso público com sua sensibilidade e inteligência, nos deixando orgulhosos de ter este grande autor na galeria de nossos entrevistados.


  
ENTREVISTA EXCLUSIVA 

Daniel Pepe pergunta

Nívea Maria em "Maria Maria".
1- Apesar de ter escrito para a televisão desde os anos 50, entre outras funções realizadas, sua primeira novela foi ao ar somente em 1978 (“Maria Maria”). O fato decorreu unicamente por Borjalo, então diretor da Globo, ter lhe transmitido a ideia da adaptação do romance, ou você já tinha a ideia de ingressar para o time de novelistas? Não havia desejo de sua parte nos anos 60 e início dos 70 de escrever novelas?

Em 1952, na TV Paulista (SP-hoje Globo) eu escrevi novelas de 15 minutos, que iam ao ar em dias alternados, no meio da tarde. Na Tupi (SP), pouco tempo depois, voltei a escrever novelas curtas, que duravam um mês, e que eram inseridas na Revista Feminina, programa diário produzido por Abelardo Figueiredo. Não via interesse em escrever novelas, sempre preferi o teleteatro. Para você ter uma idéia do meu volume de trabalho na época, a partir de 1955, só para o Grande Teatro Tupi (RJ), do Sérgio Britto, eu escrevi mais de 100 textos, entre originais e adaptações dos grandes romances da literatura universal. Nos anos 60, com Álvaro Moya, na Excelsior, e depois na Record, com a Equipe A, me voltei para os musicais e programas de variedades, como Brasil 60 (61-62 e 63),  Fino da Bossa, Esta Noite se Improvisa, Família Trapo e Hebe. Mas indo para a  Globo, onde fui diretor geral do Fantástico, era previsível que um dia me convidassem para escrever novelas. Era uma decorrência natural, pois todos sabiam da minha trajetória. Foi o que aconteceu. O poeta Paulo Mendes Campos deu ao Borjalo o livro “Maria Dusá”, de Lindolpho Rocha, recomendando-o como uma boa história para às 18 horas. O Borjalo me pediu para ler e dizer se gostaria de escrever a novela. Eu li, gostei, fiz “Maria Maria” (1978).


Guilherme Staush pergunta

2-  Você teve alguns problemas com o Ministério da Justiça ou com a própria Globo por causa de algumas personagens ou cenas de suas novelas: o strip-tease de Ana Paula Arósio vestida de noiva e o depoimento sobre a música de Roberto Carlos em “Páginas da Vida” receberam críticas dos telespectadores mais conservadores; Os atores menores de 18 anos foram retirados durante algum tempo de “Laços de Família”, e mais recentemente, o MP achou que a menina Klara Castanho estava cometendo muitas maldades em “Viver a Vida”. Qual sua percepção sobre todas essas interferências no seu trabalho? Analisando hoje, acha que elas tiveram fundamento ou representaram um exagero, um retrocesso tanto por parte dos telespectadores, dos órgãos públicos, quanto da própria emissora?

Não vi fundamento nenhum nessas ocorrências. Foram atos de censura, mesmo disfarçados, e esses atos carecem de razão, já que são arbitrários. Eu sempre fui muito patrulhado como autor. Em “Laços de Família”, o polêmico dr. Siro Darlan, considerou pesadas as cenas que envolviam crianças e adolescentes. Protestamos, mas tivemos que obedecer. Em “Viver a Vida” o que mais me causou espanto foi o Ministério Público  manifestar-se contra o uso da atriz Klara Castanho para fazer uma vilãzinha  de teatro infantil, apenas porque leu nos jornais que ela teria esse papel. Não esperou nem que se confirmasse essa intenção.  Muito estranho. A censura ao strip-tease da Arósio soou ridícula. Era na lua-de-mel dela com o marido, casados na igreja e no civil. E era muito bonito e delicado. No caso da empregada doméstica que fez o depoimento sobre a música do Roberto Carlos, também não vi nenhum problema. Era uma mulher simples, do povo, usando um vocabulário raso, à altura do seu conhecimento, falando aquilo de maneira sincera. E o que ela disse não era um palavrão, mas uma expressão popular, não inteligível para os jovens, menos ainda para as crianças. Essa ocorrência só demonstrou preconceito.  


Duh Secco pergunta:

3-  Você apostou em Helenas de meia-idade em tramas como “Por Amor” e “Laços de Família”. Já em “Viver a Vida”, investiu em uma Helena mais jovem, com uma vida estabilizada e conflitos menores que os das outras Helenas citadas. A personagem vivida por Taís Araújo, entretanto, acabou sucumbindo à abordagem da tetraplegia, por meio da Luciana, de Alinne Moraes. A novela acabou sofrendo também críticas a respeito da morosidade no desenvolvimento do enredo. Acredita que tenha cometido algum engano em “Viver a Vida”, principalmente com aquela que seria protagonista? Faria algo de diferente para contornar esses problemas?

O personagem foi criado para a Lilian Lemmertz e moldado por ela.  Regina Duarte, Vera Fischer e Christiane Torloni seguiram a mesma linha, enquanto Maitê Proença, por ser mais nova, seguiu numa outra direção. Em “Viver a Vida”, a história que eu tinha, também exigia uma Helena mais jovem, que concorresse com a filha do homem com quem se casava. E a Taís foi a minha opção, já que eu – desde sempre – quis escrever um papel para ela, de quem sou um admirador de todas as horas.  Posso garantir que fiquei feliz com o trabalho dela e que ela se saiu muito bem, mas entendo que as pessoas esperassem uma Helena nos moldes das anteriores. Isso estava muito definido na memória do público, pois só a Regina fez Helena por três vezes. Isso não é censura, é preferência. Não discuto. Sobre a morosidade da novela, desde o início eu estabeleci que a novela teria o ritmo, o tempo de uma pessoa como a Luciana.  A novela andaria como ela. Um tempo difícil, custoso. E fiz assim, como havia programado. Posso ter errado na dose. Posso ter exagerado, e nesse caso, paciência, não há como voltar no tempo. Não terá sido o meu primeiro erro em 13 novelas, nem será o último. Aceito que as pessoas gostem ou não gostem do que eu faço. E quanto às críticas na mídia, dou importância a algumas (poucas), mas nunca respondi a nenhuma.


Guilherme Staush pergunta

4-  Ainda sobre “Viver a Vida”. A novela tratou de um tema bastante delicado e pouco explorado nas novelas: a superação. E teve na figura de Luciana, interpretada por Alinne Moraes, a personagem responsável por representar essa temática da novela. Ela era uma jovem linda e rica, tinha pais maravilhosos, um homem que a amava e que não media esforços para agradá-la, conseguiu continuar a exercer sua profissão de modelo apesar de sua condição física afetada, e vivia cercada de todos os luxos e mordomias que uma pessoa pode ter: teve a grande casa onde morava readaptada para suprir suas necessidades, um quarto amplo, confortável e até mesmo uma cama que falava. Tudo isso, sem dúvida, ajudou a personagem a superar a tetraplegia. Por que razão você optou em mostrar a superação de um trauma físico através de uma personagem que talvez não reflita as condições da maioria dos deficientes físicos brasileiros? Acredita que a Luciana teria vencido todas as barreiras que lhe foram impostas se fosse uma menina pobre, desprovida de beleza, e sem a vida confortável que a personagem da novela teve?

Isso foi de caso pensado. Uma jovem linda e rica, reduzida à imobilidade, e tendo que superar a revolta que isso lhe causa, justamente por ser jovem, linda e rica. “Por que eu?” ela perguntava. Se fosse uma pessoa pobre, simples e habituada a dificuldades, certamente perguntaria “por que não eu?” Ou então: “isso tinha que acontecer comigo!”. Mas ela vivia numa redoma, cercada de facilidades, com a vida toda preparada para o seu brilho... Então aquele desastre ficou mais violento.   A superação fica mais difícil e não mais fácil como você afirma na sua pergunta. Quanto mais uma pessoa possui, mais custoso fica perder essas posses. E os depoimentos no final de cada capítulo serviam de contraponto à Luciana, mostrando pessoas de todos os níveis sociais, econômicos e culturais, num desfile de gente bonita alternada com gente feia. Um desfile que contrastava com o nível social, econômico e cultural da protagonista.


Daniel Pepe pergunta
5-  Gilberto Braga optou em suas últimas novelas por realizá-las em regime de co-autoria com Ricardo Linhares. Com isso, o trabalho fica menos extenuante para o autor, podendo deixar o processo criativo mais livre de pressões, já que os prazos podem ser cumpridos com mais folga. O que você pensa a respeito? Cogitaria essa hipótese de escrever uma novela dividindo a mesma responsabilidade com outro colega?

Não faço nenhuma objeção e estou pensando seriamente nisso. Já na minissérie “Maysa” eu chamei a Ângela Chaves para escrever comigo. Mas é preciso levar em conta que eu venho do teleteatro e da TV ao vivo. Eu escrevia, muitas vezes, de 80 a 100 páginas, que duravam 3 a 4 horas no ar. Tinha que ser sozinho, pois era um trabalho feito em casa, com máquina de escrever, varando dias e noites, durante uma semana.  Na Globo mesmo, as primeiras novelas que eu fiz (Maria Maria, A Sucessora, Baila Comigo e Sol de Verão, nem colaboradores eu tinha. Era eu e Deus. Sou centralizador, chamo para mim a responsabilidade total da novela. Aprovo pessoalmente cenários, figurinos e elenco, em condições de igualdade com o diretor. Isso cria, forçosamente, o hábito de querer resolver tudo sozinho. 


Guilherme Staush pergunta

6-  Alma Flora Pirajá de Albuquerque, um grande nome para uma grande mulher. De fato, a personagem de Marieta Severo em “Laços de Família” é uma das mais bem escritas, na minha opinião. Era uma mulher admirável pela sua praticidade em encarar os problemas da vida, tinha qualidades e defeitos perceptíveis em várias pessoas que conhecemos no nosso dia a dia, o que a tornou bastante humana nesse aspecto. Mesmo não assumindo ares de vilã, ela foi a antagonista da história, impondo vários obstáculos ao amor de Edu (Reynaldo Gianecchini) e Helena (Vera Fischer), e ainda assim era uma mulher admirável. Em quem você se inspirou para criar a Alma? Na sua opinião, o que é mais admirável na personagem? Concorda que é uma de suas personagens mais bem delineadas?

Esses personagens emblemáticos, que são criados para as antagonistas, eu desenvolvo a partir do momento em que eu tenho a atriz ou ator para desempenhá-los. No caso, a Marieta estava convidada para o papel muito antes de eu começar a escrever a Alma. É um dos meus personagens favoritos, assim como a Marieta está entre as atrizes que eu mais admiro e de quem sou amigo devotado. Basicamente, não me inspirei em ninguém que possa nomear, mas num punhado de mulheres possessivas e encantadoras, que morrem e matam por amor, mas sempre com um sorriso nos lábios.


Fernando Russowsky pergunta
7-  Uma das características mais marcantes dos seus últimos trabalhos é a presença de um grande número de atores. Sua maneira de conduzir as tramas, abrindo mão de ideias previstas na sinopse e incorporando outras que surgem durante a novela – pode-se dizer que se a telenovela, por natureza, é uma obra aberta, as suas são ainda mais – acaba, por vezes, deixando alguns atores insatisfeitos por não terem o destaque que acham que mereciam ter. Inclusive, foi divulgado na época de Páginas da Vida, que o ator Antonio Calloni pediu afastamento por ver-se descontente com os rumos de seu personagem. Como você lida com este tipo de situação?

Eu lido bem com todas as situações que são criadas durante os oito meses de uma novela. Sou muito escolado. A sinopse sofre mudanças que eu considero necessárias e a empresa que me paga não me pede para ser diferente. Quem entra nas minhas novelas, sabe no que está entrando, sabe que será difícil a trajetória. Faço mudanças no dia da gravação, incluo e excluo cenas depois do capítulo editado. Só a TV Globo tem condições de me dar suporte. Lamento quando um personagem não acontece e quando um ator ou atriz não fica feliz com o papel e até pede para sair. Faz parte do show, como se diz, assim como os aplausos, existem as vaias. Lido bem com as duas manifestações. Isso acontece em muitas novelas, mas nem sempre a mídia se ocupa disso com fervor, como nas minhas.  Mas existe a compensação de muitos personagens serem pequenos na sinopse e se engrandecerem no decorrer da novela, fazendo seu intérprete feliz e realizado. Isso compensa a desistência dos insatisfeitos.


Guilherme Staush pergunta
8-  Uma piada metalingüística feita no remake de Ti Ti Ti chamou bastante a atenção dos  telespectadores. A personagem de Cláudia Raia diz para uma das empregadas do estilista Jacques Leclair: "Olha! Empregada querendo ter fala! Isso aqui não é novela do Manoel Carlos, não!"

Eu não assisti, mas me contaram. Eu costumo fazer essas menções metalingüsticas desde Baila Comigo. Muito antes disso virar e sair de moda. Acho divertido, repercute, o público sorri. Achei uma homenagem simpática da nossa querida Maria Adelaide. 

E por falar nisso, você é um autor que representa um divisor de águas para as domésticas da teledramaturgia brasileira. “As empregadas do Maneco” viraram uma atração à parte em todas as suas novelas. Foi assim desde a primeira, Rita (Léa Garcia) em “Maria Maria”, na novela seguinte foi a vez do Antônio (Paulo Pinheiro) em “A Sucessora”, depois veio a Conceição  (Maria Alves) em “Baila Comigo”, e por aí vai. Como surgiu a idéia de fazer dos empregados pessoas bastante atuantes e carismáticas dentro das suas histórias? As empregadas da sua casa são como as que a gente vê nas suas novelas?

Não existe numa família pessoa mais íntima do que uma empregada doméstica. Em Baila Comigo, a Helena explicando porque fazia da empregada uma confidente, dizia que para a Conceição podia contar tudo, mas não para o marido ou o filho. E o carinho entre elas era tão grande, que a empregada ficou grávida e teve o filho no sofá da sala, num parto realizado pela patroa. As empregadas, quase sempre, ficam sabendo que um casamento vai acabar, muito antes do outro cônjuge.  É ela que limpa o quarto do casal, que mexe na roupa suja, que surpreende as lágrimas da patroa, que recebe o bilhete de um amante. É ela que encontra um cigarrinho de maconha no quarto do filho do casal e alerta os pais. É ela que sabe, em primeiro lugar, como estão as finanças da família. Uma vez, em Buenos Aires, eu fui entrevistado e o repórter espantava-se dessa intimidade, mas lá a história era diferente, como é até hoje: as empregadas não entram na sala, a menos que a patroa autorize. Ficam na soleira da porta, aguardando permissão. Vi isso em todas as casas em que estive. Mas aqui no Brasil ninguém pode estranhar e se admirar disso. Menos ainda no Rio, onde a areia da praia iguala todas as pessoas deitadas ao sol. 


Duh Secco pergunta
9-  Alguns anos atrás, a imprensa noticiou a possibilidade de uma nova versão de "Baila Comigo" para a faixa das 18h.  Posteriormente, ventilaram a hipótese de um remake de sua adaptação de A Sucessora, por suas colaboradoras, tendo a sua supervisão. Estas informações procedem? Quais são os seus próximos projetos? A adaptação do romance português "Vale Abraão" pode vir a ocupar a faixa das 23h, que a Globo planeja implantar?

De Baila Comigo às 18 horas eu nunca soube. Quanto à Sucessora, eu reli e vi que seria preciso escrever uns 100 capítulos novos para atender ao tempo e às necessidades de uma novela de hoje. Cada capítulos tinha 20 páginas mais ou menos, alguns até com 16 e 17. E cada capítulo com duração entre 25 e 30 minutos, num total de 120. Esses 120, numa produção de hoje, ficariam reduzidos a 70, no máximo 80. A Sucessora tinha 20 personagens, com 8 realmente importantes. Hoje, para atender à necessidade, precisaria de 50. Sou a favor dos remakes, achei O Astro, por exemplo, um acerto e torço para que esse novo horário permaneça destinado à dramaturgia.

BATE-BOLA com Maneco
O que o Leblon tem de melhor e de pior:
Ainda é possível circular a pé pelo Leblon. A razão disso é que há pouco público flutuante nas ruas. Ninguém vem aqui para olhar as vitrinas das lojas, como em Copacabana e Ipanema. Quem ocupa o bairro são os moradores. Qualquer pessoa que não seja do Leblon é facilmente reconhecida. Claro que vem gente de todos os lugares por causa dos bons restaurantes e bares, mas comem, bebem e voltam para as suas casas. Por ser um bairro habitado por muitos artistas, atrai paparazzis e curiosos, assim como pessoas de outros estados, em busca de fotos e autógrafos, mas ninguém se importa com isso. É até divertido. E há muita paz nesse convívio. Isso é o que há de melhor no Leblon, que muitas vezes se parece a  uma pequena cidade do interior. O pior a lamentar é que a violência já chegou por aqui, com essa nova modalidade de assaltos e furtos, por bandidos de motocicletas. 

Dou um presente e dou um castigo para ...
Dou apenas o presente. Para a Lília Cabral.

Uma música que eu gostaria de ter na abertura de uma novela:
Até agora, tive todas que quis. Não é possível para mim fazer escolhas antecipadas. A música aparece depois da sinopse, por ter afinidade com a história que pretendo contar.

Das minhas Helenas, a que mais me emocionou foi... 
A de Lilian Lemmertz, criadora do personagem.

Um sonho e um pesadelo:
No campo profissional, sonho com as novelas mais curtas em número de capítulos e duração de cada um. O pesadelo é isso não ser possível.
  
Um tema que ainda quero abordar nas minhas próximas novelas:
O do amor versus casamento.

Entrevista de Licia Manzo para Zean Bravo no Jornal O Globo

RIO - Foi durante uma sessão do musical “O rei leão”, em Nova York, que Lícia Manzo teve a ideia de que precisava para “Sete vidas”. A segunda novela da autora na Globo, que vai substituir “Boogie Oogie” às 18h no começo de 2015, parte da história de sete pessoas que se descobrem meio-irmãs. Todo o grupo foi gerado por meio de doação de sêmen de um mesmo homem e irá se aproximar dele, um navegador interpretado por Domingos Montagner.

Lícia, que está há 18 anos na Globo e começou na TV integrando a equipe de redatores de humorísticos como “Sai de baixo” (entrou em 1996) e “A diarista” (2003), já foi colaboradora do quadro “Retrato falado” (2000), de “Malhação”, em 2003, e da novela “Três irmãs” (2008). Ela estreou como titular com o sucesso “A vida da gente” (2011), depois de escrever a série “Tudo novo de novo” (2009). A autora, que completa 50 anos em 2015, já foi atriz antes de mudar de profissão. Ela entrou para o Tablado aos 14 e, aos 15, já levava aos palcos a sua primeira peça infantil.

Na sala de seu apartamento, na Gávea, Lícia adianta detalhes do seu novo folhetim nesta entrevista, parte da série com autores de novelas iniciada em janeiro pela Revista da TV. Neste trabalho, ela terá em seu time quatro colaboradores: Daniel Adjafre, Dora Castellar, Marta Góes e Cecília Giannetti.

Em que momento da criação da novela você está?

Tenho 48 capítulos prontos. É uma tendência. Os autores estão trabalhando com muita frente. Há prós e contras. A novela estabelece um diálogo com quem está assistindo. Mas operacionalmente é mais sensato.

Como foi o início da criação de “Sete vidas”?

A novela seria exibida às 23h e teria 57 capítulos. A partir daí, gerei 30 capítulos, que foram muito bem avaliados pela empresa. Eles disseram que precisavam de uma história forte para às 18h. Com isso, aumentei para 100 capítulos.

Tem chance de esticar mais a trama após a estreia?

Não. Fazer mais capítulos seria esgarçar, sabe?

A novela foi adiada?

A estreia seria em março deste ano, mas o Jayme (Monjardim, diretor) fez a novela do Manoel Carlos. E esse é um projeto nosso. Quando terminamos “A vida da gente”, tomamos um café e houve um desejo recíproco de continuar a parceria. Ele queria falar sobre a Antártica, de um navegador. E eu tinha lido uma matéria que me capturou: hoje em dia existe uma geração adulta de irmãos gerados via inseminação, doação de sêmen. Hoje, esses meio-irmãos se descobrem pela internet. Existem sites que promovem encontros mundo afora. Há grupos enormes de meio-irmãos que foram compostos dessa forma, chegando às vezes a 50 pessoas.


Como juntou a sua ideia com a do Jayme?

Tirei seis meses de férias depois de “A vida da gente”. Fui para Londres fazer um curso de inglês e lá visitei uma clínica de inseminação artificial. Comprei também um documentário chamado “Donor unknown” (doador desconhecido), sobre o encontro de 15 meio-irmãos. Pouco depois, assisti ao musical “O rei leão”, em Nova York, com a minha filha. É muito doido. Tive a ideia da novela vendo “O rei leão”. Essa é uma declaração bombástica (risos). Amei a peça e via crianças e adultos emocionadíssimos. Depois me dei conta: a peça tem estrutura de fábula, é uma história sobre amadurecimento.


Mas como “O rei leão” inspirou a novela?

Ainda em Nova York, fiz uma viagem para a praia, e eu não tinha nem um bloquinho na bolsa, só post-it. E me veio a história inteira: pápápá! Fui anotando com medo de o papel acabar! Pensei: o navegador é um cara que se exila. É incapaz de estabelecer vínculos ou raízes porque tem um trauma. Mas, no passado, o personagem foi doador de sêmen. São sete vidas porque sete irmãos foram gerados. Essas vidas vão se cruzar com a dele e vão resgatá-lo do exílio. Esse é o desenho da novela. Que fique claro que em “O rei leão” não tem doação de sêmen (risos). O que me provocou foi a jornada que é crescer, amadurecer, e se tornar um adulto.

Como esses meio-irmãos se encontram na novela?

Eles começam a se buscar por um site e isso vai dando mil cruzadas na história.


A notícia de que a Regina Duarte será uma homossexual na novela causou impacto. Era a sua intenção?

É engraçado isso. A personagem é 700 coisas antes de ser homossexual. Se você entrar em qualquer site de doação de sêmen vai ver que grande parte das crianças geradas foi dessa forma: mulheres que são parceiras. Na medida que tenho sete vidas geradas assim, achei orgânico ter essa personagem. Não quero polemizar nada, nem colocar um spot em cima disso. A parceira dela já morreu na trama. Antes de ser homossexual, ela é uma mãe maravilhosa (dos gêmeos feitos por Thiago Rodrigues e Maria Eduarda de Carvalho), uma mulher que vai ter uma influência enorme na vida dos filhos e dos netos. Eu odeio esses labels (rótulos): “o cara é gay”. E daí? É só um aspecto da pessoa.

Mas não é curioso ver a Regina Duarte nesse papel?

Ela é uma mulher interessante e leva a carreira de uma maneira muito corajosa. E já deixou de ser “namoradinha do Brasil” desde “Malu mulher”.

A personagem dela terá algum envolvimento amoroso?

A princípio não. Mas ainda não sei.

Como você começou a escrever novela?

Escrevi programas de humor durante muito tempo e passei a mandar meus projetos para a Globo porque queria ser colaboradora de novela. Finalmente, em 2009, estreou o “Tudo novo de novo”. Na época, eu colaborava com “Três irmãs”, do meu querido (Antonio) Calmon, que me liberou no meio para eu fazer o seriado. Depois da série, me ligaram propondo que eu fizesse uma sinopse de novela. Achei que pegaria muito mal dizer não (risos). Seria um atestado horroroso de falta de ambição, de tudo. Escrevi uma sinopse bem caprichada para eles verem que eu queria ser colaboradora. Era “A vida da gente”. Mas a novela foi aprovada e levada ao ar em seis meses. Quase morri. Eu quicava de ansiedade aqui em casa, quase fui internada. Juro por Deus! Fiquei muuuito nervosa, com medo de não dar conta.

Buscou uma válvula de escape para passar por isso?

Eu não tomo bola, não me dou bem com medicamento. Olha que horror a minha vida! Não bebo nada, nunca me droguei. Toda bola que tento tomar, não sei se porque tenho neurônio virgem, fico louca. Quando eu fazia teatro, fui a São Paulo de ônibus e tomei meio Dalmadorm. Fiquei sedada, dormi três dias.

O autor fica sem tempo para nada com a novela no ar?

Terminei “A vida da gente” extenuada. Se um novelista decano termina sua milésima novela cansado, imagina alguém que fez a primeira? Não conseguia ir ao cinema, por exemplo, porque não prestava atenção em nada. É muito severo. Eu chegava ao ponto de esquecer qual era a torneira quente e a fria do meu próprio banheiro (risos) no período de “A vida da gente”. Não dá tempo de dormir muito e ainda tem o fator ansiedade. Você deita com aqueles personagens na cabeça. O sono fica prejudicado. Então, no final, eu estava louca, mesmo (risos).

O resultado da novela no ar agradou a você?

Muito. Eu assistia a tudo com muita felicidade. É um processo paradoxal escrever uma novela. Ao mesmo tempo que é difícil, é muito gostoso.

O que você fez quando “A vida da gente” acabou?

Fui à praia e não conseguia ficar. Quando acaba, você ainda está cheio de adrenalina, ligado àquela função diária que exerceu. Não vou falar isso para causar nada... Mas achava realmente que aqueles personagens existiam. Acabou a novela, e eu pensava: “Como estão a Manu, a Ana?”

Tem vontade de escrever para o horário nobre?

Não fico pensando nisso. Só atrapalha. Já é difícil escrever essa e pensar numa próxima história. Meu desafio é esse: achar outra história daqui a pouco.

Qual o seu principal interesse ao escrever?

Sempre fui boa em captar o ambiente, em perceber as pessoas. O ser humano é mais misterioso do que o Oriente Médio. A gente mostra muito pouco nas relações sociais. Os nossos medos, as vergonhas, as intenções ocultas... Isso é o ouro na ficção.

Você já contou que liga para sua casa e deixa gravados recados com ideias que tem na rua. Ainda faz isso?

Eu me sofistiquei (risos). Sou péssima para novas tecnologias. Não tenho Twitter, Facebook, nada. Mas minha filha disse: “Pelo amor de Deus, usar o gravador do iPhone é muito fácil” (risos). Hoje, olha que moderno (mais risos), gravo as ideias no celular!

Aboliu os bloquinhos para anotar suas ideias?

Sou horrivelmente artesanal. Uso bloquinho, post-it, canetas coloridas. O processo de criação é subjetivo, e isso me ajuda a dar uma forma às coisas. Criei um objeto que outros teriam vergonha de mostrar, mas tenho orgulho. É um arquivo dividido por personagens e as semanas da trama. É uma caixinha com etiquetas coloridas para cada núcleo de personagens. Sou rata de papelaria, adoro! O Daniel, o homem da equipe de colaboradores, morre de vergonha, e apelidou o artefato de ‘iPeba’. Houve um bullying interno (risos). Poderia ter sido feito um arquivo no computador, mas detesto. Tenho TOC de organização. Eu me sinto tão caótica internamente que, se não organizar a parte externa, fico louca.



Gilberto Braga é entrevistado por Zean Bravo no Jornal O Globo

RIO - Um dos principais autores de novelas do país, Gilberto Braga sabe que seu nome é uma grife e deixa claro que adora fazer sucesso. Aos 69 anos, o criador de “Dancin’ days” (1978), “Vale tudo” (1988), entre outras mais de 20 novelas e minisséries, enfrenta um momento delicado com a audiência abaixo do esperado de “Babilônia”. A trama, escrita por ele com Ricardo Linhares e João Ximenes Braga, provocou reações pelo excesso de maldade de alguns personagens e pelo beijo do casal formado por Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg, logo na estreia, em 16 de março. À vontade no escritório de sua casa, no Arpoador, no Rio, Gilberto fala pela primeira vez sobre os problemas enfrentados pela produção. Conta que as mudanças realizadas na trama elevaram os índices em todo o Brasil, menos em São Paulo, onde “Babilônia” segue com média de 25 pontos — para efeito de comparação, “I love Paraisópolis”, trama das 19h, teve média de 26 em sua primeira semana.

Quando a audiência insatisfatória da novela começou a ser uma questão?
Desde o início. Pedi para anteciparem o grupo de discussão e fizeram correndo porque a situação estava catastrófica. A audiência no Brasil inteiro era calamitosa. No Nordeste e em Goiás, por exemplo, deu 12 pontos. Aí, fizemos as correções (na trama) e deu certo no Brasil inteiro. Em Santa Catarina, passamos dos 12 pontos para 42.


Inês (Adriana Esteves) confronta Regina (Camila Pitanga) - Paulo Belote / TV Globo/
O que deu errado?
Basicamente, a novela chocou por causa do beijo gay e porque tinha pouco amor e muito sexo. Mas não foi só o beijo. Foi incontável o número de pessoas com quem a Gloria Pires fez sexo. O primeiro capítulo tinha coisas chocantíssimas. Mas depois das mudanças, a audiência não subiu em São Paulo. Até agora eu sofro a humilhação pública diária de perder para a novela das 19h, “I love Paraisópolis”.

Está satisfeito com a novela após as mudanças? Como avalia “Babilônia” até agora?
Estou satisfeito com o resultado, não acho que seja ruim. Mas deu muito trabalho refazer. Está dando muito trabalho. Felizmente, gosto de tudo o que está no ar. Por que a audiência não sobe? Eu não sei.

Quais são suas apostas para a novela agora?
Uma delas é a dupla cômica, o Marcos Veras e a Juliana Alves. Isso é novo para mim. Eu nunca fiz algo assim, meio chanchada. Vou investir nesse triângulo (deles com Igor Angelkorte).

O que mais deu certo?
A família do Aderbal Pimenta (Marcos Palmeira), o casal jovem (Laís e Rafael, feitos por Luisa Arraes e Chay Suede), e a história das lésbicas. Não sei se estão notando, mas a Laís é a primeira heroína evangélica das novelas. Agora ela vai começar a se aproximar da Estela (Nathalia Timberg) e gradualmente vai aceitar as lésbicas.


Beatriz (Gloria Pires) e Inês (Adriana Esteves) serão vilãs até o final?
São duas vilãs e vão continuar duas vilãs. Se não for assim, não sei que história vou contar. A novela é sobre três mulheres. Duas vilãs e uma heroína.

Do que você não gosta?
Não gosto muito da trama policial. Acho meio errada e vamos acabar com isso em breve. Vimos no primeiro capítulo o assassinato. O único suspense é se vão provar a culpa da Beatriz. E é pouco. Nos próximos capítulos, alguém vai armar para a Regina (Camila Pitanga) perder a licença da barraca. Será um novo mistério.

O personagem do Marcos Pasquim seria gay. Por que essa trama foi mudada?
Para atender um pedido de um grupo de discussão de São Paulo. Elas tinham tesão pelo Pasquim e lamentaram o fato de ele ser gay na novela. Eu fiquei com pena das mulheres e botei ele para ser hetero. Mas vai entrar outro personagem para ficar com o Ivan (Marcello Melo Junior).

Vilão precisa ser punido?
No final, a Beatriz vai ser presa ou vai morrer. Recebo muitos pedidos para ela matar a Maria José (Laila Garin) e ficar com o Aderbal. Mas não vou fazer isso. Ele também será punido. A banana do Marco Aurélio (de “Vale tudo”) foi em outra época. Repeti a banana em “Insensato coração” (2011), mas o personagem foi preso. Eu não aguento mais impunidade.

Por que as pessoas não querem ver sexo na TV?
Acho que querem, mas são hipócritas. Mesmo em casas em que há mais de um aparelho de TV as pessoas gostam de ver a novela juntas. E certas coisas que o adulto aceita ele não quer ver ao lado de uma criança. Foi o caso do beijo. Nenhum adulto se choca com a Fernanda Montenegro beijando a Nathalia Timberg, mas não quer ver ao lado do filho porque não sabe como explicar.

Você tem algo dos seus personagens?
Todos estão em mim, até a Beatriz. Sou meio tarado.

Pretende parar de escrever novelas?
Quero continuar. Não sou prepotente de achar que tenho que escrever do meu jeito. Gosto de fazer sucesso e vou fazer as concessões que forem necessárias para o público gostar. Seria arrogante achar que sou o maioral.

Mas você não pensa em aposentadoria?
Não pretendo me aposentar. Pago um condomínio muito alto. Aqui, em Paris e em Nova York.

Hoje é preciso fazer concessões para ser popular?
Nunca fui extremamente popular, sempre fui refinado, mas quero agradar a todos. Desde “Dancin’days” as minhas novelas são fortes. Poucos se deram conta, mas no capítulo 60 a heroína (Sônia Braga) virou puta quando explorou o Ubirajara (Ary Fontoura).

Como acompanha a repercussão da novela?
Não acompanho 100% o que falam nas redes sociais, mas sei que gostam da novela. O que chega a mim é positivo. Mas paulista é esquisito. Um dos meus melhores amigos é o Silvio de Abreu. Ele fez o personagem Jamanta (em “Torre de Babel”, de 1998). Odeio Jamanta e falei: “Jamanta de novo?” (quando ele voltou em “Belíssima”, de 2005). Ele disse: “É um fenômeno paulista. Fora de São Paulo ninguém suporta, mas lá é um sucesso. Por isso que eu botei”. Acho que o problema está aí. Não sei escrever para quem gosta de Jamanta. Meu universo é anti-Jamanta.

Silvio de Abreu editou capítulos recentes da novela. Qual foi a participação dele?
Eu e Silvio somos amigos, e a gente se ajuda em momentos de crise. Agora é oficial porque ele foi colocado como a pessoa que cuida das novelas. O que é ótimo. Infelizmente, na época em que entreguei a sinopse, ele não tinha esse cargo. Tenho queixa da entrega da sinopse. Ficou rolando lá pela Globo quase um ano, eu estava trabalhando com antecedência. Na sinopse tinha cafetão e garota de programa. Era forte e ninguém falou nada. Depois que a novela entrou no ar falaram: cafetão e garota de programa não pode! Tinham que ter me avisado na sinopse. Aí foi um tal de Alice (Sophie Charlotte) virar heroína...

Por que o beijo de Fernanda e Nathalia chocou tanto?
O beijo que eu escrevi era um selinho. Eu fiz a cena e lembro que botei selinho. Fernanda, que gosta muito da novela, sugeriu ao (diretor) Dennis Carvalho que fosse um beijo um pouco mais longo e romântico. Não chegou a ser chupão, mas ficou um beijo. Não estou dizendo que a culpa é da Fernanda porque todos nós vimos e gostamos. Então todo mundo é responsável. Ninguém viu nada demais naquele beijo.

Em “Amor à vida”, Félix e Niko se beijaram e havia uma torcida pelo casal. O que mudou de lá para cá?
Lá, o beijo não foi no primeiro capítulo. Nem eram duas estrelas históricas da TV e do teatro, né? O Silvio teve problema com lesbianismo em “Torre de Babel”, mas quando ele fez Sandrinho (personagem gay de “A próxima vítima”, de 1995) não houve problema porque pegou dois atores que não eram ídolos. Se fosse o Fábio Assunção de gay namorando o Marcos Palmeira iriam chiar.

Você fez tramas como “Vale tudo” e “Dancin’days”, avançadas para a época. O Brasil está mais conservador?
O Brasil está mais careta, não tenho a menor dúvida. Quer a prova? Não pode ter nudez nem masculina nem feminina. Nos anos 80 tinha a bunda de um homem de fora na abertura de novela das 19h (“Brega & chique”, de 1987). Hoje não poderia. Por quê? O Brasil encaretou. Por que uma bunda de homem choca? É a realidade que a gente está vivendo. Por que não pode peitinho de mulher? É tão agradável. Até eu que sou gay, gosto.

Como é escrever novela com esse panorama?
Eu não raciocino muito não. Vou na intuição e, quando erro, sou humilde. Quando faço uma coisa que não agrada tento consertar. Não estou na casa das pessoas às 21h para chocar. Não quero ser um autor maldito, quero ser um autor de sucesso. Eu sempre persegui o sucesso. Ricardo e João pensam assim também.

Como encara uma audiência abaixo do esperado?
É uma decepção muito grande. Escrevo achando que está bom e na Bahia e em Goiás dou 12 de audiência. O que é isso?

Como isso o afetou?
Eu fico deprimido. Tento juntar forças para continuar corrigindo, né? Fora que perdi o meu adiantamento, estava adiantadíssimo.

Como busca equilíbrio para enfrentar essa fase?
Tenho uma psiquiatra e quando estou deprimido converso com ela. Sou dependente de remédios, tomo muito Rivotril. Tomo remédio o tempo todo. O remédio me protege, mas tudo me atinge. Eu perdi meu pai com 17 anos e tomo remédio desde essa época. Minha mãe se matou quando eu tinha 27 anos. Tive uma vida difícil. Isso de certa forma fortalece a gente, mas nos deixa dependente de remédios.

Você teve problemas de saúde em 2011. Já está plenamente recuperado?
Não estou andando direito até agora. Fiz uma cirurgia complicada, uma correção de aneurisma na aorta, botei um stent. Podia ter morrido, mas correu tudo bem. Mas, durante a cirurgia, tive um problema de isquemia que fez eu não andar normalmente. Faço muita fisioterapia. Metade do meu dia é dedicado a isso, mas a melhora tem sido bem devagar.

Você é perseverante?
Sou. Isso é importante. E não me acho um coitadinho por isso. Poderia ter acontecido coisa pior. Eu me cuido. Devo ter aí uns dez médicos. Velho rico é assim. Eu tenho tudo, só não tenho veterinário. E não tenho mais psicanalista porque ele morreu. Mas fiz 30 anos de psicanálise.

Quais são seus maiores prazeres?
Meus maiores prazeres me são negados. Um é sexo, que está uma complicação para fazer. O outro é comer. Mas sou vaidoso, não quero ficar barrigudo e fico com fome.

Vocês jogaram fora 40 capítulos de “Babilônia”?
Agora estou fazendo uma homenagem a Manoel Carlos. Entrego, e duas semanas depois os capítulos vão ao ar. Ainda não cheguei a Manoel Carlos, quase. Minha equipe é grande, mas quem faz as escaletas é o João Ximenes, e ele não aguenta fazer mais de seis escaletas por semana. No início, ele fazia duas escaletas por semana. E a gente botou quase o final da novela já no ar.

É verdade que Adriana Esteves e Gloria Pires estão insatisfeitas com as mudanças?
Elas estão gravando demais, tive que jogar capítulos fora, e está todo mundo sacrificado. Mas o clima é amistoso.

Falaram que o Ricardo e o João brigaram. É verdade?
Invenção. Eles se dão superbem. Fico até com inveja porque eles conversam mais entre eles do que comigo. Acordo tarde, e eles passam a manhã inteira no telefone fazendo história.

De quem é a palavra final na sua equipe?
É minha, mas eles pedem que seja assim.

Como fica a trama agora depois desse adiantamento?
Agora estou improvisando. A gente se reúne aos sábados para fazer história juntos. Das paralelas ainda sobrou história, mas na espinha dorsal estamos perto do final quando, na verdade, só temos 1/3 da novela escrita.

Até que ponto a novela foi encurtada?
Não sei dizer. Acho que foi só uma semana, mas isso não me preocupa. Vai ter quantos capítulos a Globo precisar.

Você já enfrentou outras crises como essa?
Tive problemas piores. “Brilhante” foi uma catástrofe, uma novela toda errada. Ingenuidade fazer a história de um gay filho de uma mãe possessiva numa época em que era proibido tocar nesses assuntos na televisão. “O dono do mundo” teve rejeição total. Escrevi a novela toda deprimido.

O que aconteceu agora arranha seu prestígio?
Não penso nisso. Eu tenho prestígio e sempre vai ter alguma novela minha para botarem no Viva e para alimentar o meu ego. Até “O dono do mundo” está sendo reprisada.

“Babilônia” ainda pode se tornar um sucesso?
Sou um otimista. Tudo que era rejeitado foi mudado.

Você faz 70 anos em 2015. O que mais quer de presente?
Quero ganhar de “I love Paraisópolis”.



João Emanuel Carneiro no Estadão por Cristina Padiglione

Foi numa tarde cinzenta que João Emanuel Carneiro, o pai de Carminha, conversou comigo, à beira da piscina do Copacabana Palace, agora sobre seu novo protagonista, Romero Rômulo (foto acima, de Tata Barreto/Globo)), o ex-vereador vivido por Alexandre Nero na próxima novela das 9 da Globo.

“Olha isso aqui, somos gringos”, diz ele sobre a ideia, equivocada, de que aquele cartão postal à nossa volta representa o País.

Autor de Avenida Brasil, João Emanuel Carneiro volta á faixa nobre após três anos, agora com A Regra do Jogo. Com enredo disposto a questionar os limites entre o bem e o mal, o tolerável ou não, o julgamento sobre quem vai para o inferno e quem não vai, a substituta de Babilônia chega em 31 de agosto, empacotada na alta expectativa gerada pelo fenômeno que foi Avenida Brasil, mas também pela torcida por dias mais felizes na faixa horária, após sucessivas tentativas malsucedidas de “consertar” o roteiro que está no ar.

Outro dia, no mercado, João foi abordado pela caixa: “você não é aquele cara que vai escrever a próxima novela?”, pergunta a moça. “Sou”, responde. E ela: “Que responsabilidade, hein?”, conclui ela, para espanto do autor, que, a despeito de tantas expectativas em torno de seu nome, consegue achar graça na cena.
A seguir, um apanhado de cada assunto conversado entre nós.

Subúrbio (Divino/Avenida Brasil) e Zona Sul carioca X Favela (Morro da Macaca) Morro e Zona Sul Carioca
“Essa novela é favela e asfalto. Subúrbio é uma outra coisa. Favela e asfalto tem outro tom, é uma outra história. É um pouco a favela que deu certo, um pouco inspirado no Vidigal, que eu fiz esse Morro da Macaca (um dos núcleos de A Regra do Jogo) , como foi o Divino, mas é diferente, é sobre a interseção do Rio de Janeiro. Por exemplo: tem um casal de classe média que resolve que não consegue mais pagar IPTU, nem taxas condominiais nem reforma da portaria nem IPVAS do carro, que é da zona sul e que vai morar na favela. Aqui acontece muito. Tem muita gente de classe média que vai morar na favela. Conheço muitos artistas que vão morar na favela. Atores, músicos, mas também pessoas de classe média tipo médicos, porque é muito mais barato. Tem colegas meus de colégios que foram morar na favela. Na novela, ele é um designer gráfico casado com uma arquiteta, o Bruno Mazzeo e a Monique Alfradique, pra viver uma vida louca, beber, cair na farra, tem tempo pra se divertir, que eles não tinham no apartamentinho que alugavam. Esse casal é até um pouco o paradigma da história, é sobre isso, um pouco, a novela, sobre esse momento que  agente tá vivendo, que é um pouco curioso, a favela se aproximou muito da zona sul.”

“O subúrbio era diferente, o subúrbio estava lá e nós aqui, não tem essa mistura que tem no Vidigal.”
“São Paulo é totalmente diferente. Aqui é muito diferente. Por exemplo, noite: noite eu vou muito ali no alto do Vidigal, no Arvrão, que é um lugar inspirador pra novela, uma boate maravilhosa. No Vidigal sobe tranquilo. É uma favela modelo, o barraco custa 400 mil reais, uma alvenaria mínima, um banheiro e uma salinha, eu acho caríssimo. Mas a Madonna comprou um barraco lá, tem dois hostels e duas boates, no topo do Vidigal, é superdivertido , uma noite fantástica e todo mundo da zona sul vai lá, virou um point da noite, sofisticado, (essa mistura) é até um pouco promíscua, tem uma promiscuidade ali, complicada, a novela é muito sobre promiscuidade também.”

Livre Arbítrio: qual é ‘A Regra do jogo’?
“A Regra do Jogo é qual o limite de cada um arbitrar o que seria intolerável, o que seria imoral, o que seria mau caratismo e como é no Rio de Janeiro, onde o conceito de psicopatia é bem fluído, digamos assim, o que é tolerável, o que não é, quem é que vai ser condenado, quem vai pro inferno ou pro paraíso? Tem um lado um pouco Você Decide nessa novela. O espectador vai arbitrar um pouco se essa pessoa merece uma chance ou vai pro inferno.”

‘Escrevo para mim’
“Avenida Brasil acho que chegou a ter (grupo de discussão, pesquisa que  a Globo aplica às suas novelas), mas eu nem fui. Na verdade, eu faço a novela muito pra mim. Eu sou o primeiro espectador. Eu nunca penso que estou fazendo a novela pra agradar alguém. A novela é pra me agradar. É claro que tem que ter um bom senso também. Eu não posso fazer uma história de freiras lésbicas assassinas pra família brasileira, algum bom senso tem que ter, alguma autocensura, é uma coisa difícil também.”

“É preciso contrariar o espectador”
“É um jogo, é uma corda que você tem que puxar e esticar, mas eu acho justamente que é preciso contrariar as pessoas o tempo todo, numa certa medida. A Favorita (novela de 2008 em que a aparente vítima, Flora/Patrícia Pillar, se revelava a assassina, e Donatela/Cláudia Raia, arcava com a acusação injusta)  foi isso. Eu me lembro que quando eu revelei que Flora era a assassina, recebi ameaças de morte. Tem uma mulher que declarou que ficou dois dias deitada na cama olhando o teto, que ela ficou péssima, as pessoas não achavam que fosse possível fazer isso, é impensável. Na Favorita era muito claro que havia uma boa e uma má. Aqui é justamente 50 Tons de cinza. É justamente: como condenar? quem ainda é passível de salvação e quem não é? Quem vai direto pro inferno?”

Alexandre Nero, o vereador
“Ele é o protagonista. Ele vai ser julgado nas balanças, todas. A história da novela é um pouco a história dele e justamente ele poder pender pra um lado ou pro outro, na balança. Ele pode ir pro bem ou pro mal. Vocês verão, quem viver verá. A novela é sobre isso.”

A arte de se reinventar
“Na televisão, você não pode jamais se repetir. Se você acha que encontrou uma fórmula, você não encontrou. Cada novela nova é um desafio. O desafio dessa história é falar sobre o livre arbítrio. Porque senão você tem que achar um brinquedo novo pra você, que você vai ficar brincando por dois anos e meio. Fico dois anos e meio fazendo uma novela. Se não tem um desafio, pra mim, não tem uma novidade, é um saco. Eu acho que o erro perigoso de quem escreve televisão, e eu me policio pra não cair nisso, é achar que você descobriu uma fórmula, que você tem cancha, que você tem métier.

‘Televisão não é feita por gente fina’
(Sobre matéria da Folha de S.Paulo, na época de Avenida Brasil, em que outros autores de novelas da Globo, colegas seus de ofício, desdenhavam do caráter inovador apontado naquela heroína de Débora Falabella, uma mocinha disposta a partir para a batalha, com as mesmas armas do vilão)
“Nossa, achei tão deselegante, aquilo, eles poderiam ficar calados. Televisão não é coisa muito fina, em geral, não é feito por gente fina. Agora (que está nela) fico menos fino (risos)”

Caçula na faixa das 21h
“Todos que escrevem pras 9 horas são pessoas muito talentosas, cada um a sua maneira. Estão experimentando muitos novos autores pra novos horários, alguns eu gosto, outros não, mas a TV Globo está arriscando e está fazendo bem isso, são várias novelas das seis e das sete. A minha chegada (ao time de autores da Globo) foi bem mais atípica. (Com o crédito de quem escreveu o premiado filme ‘Central do Brasil’), cheguei sozinho. Fiz colaboração na Muralha (de Maria Adelaide Amaral), depois eu pensei: ou faço uma novela minha ou não faço nada na TV Globo, porque eu não ia ser colaborador. Aí veio Da Cor do Pecado, deu muito certo, aquela novela, sucesso estrondoso.Tenho 45, sou uma criança (sobre escrever para o horário das 21h, faixa em que ninguém mais jovem ocupava há mais de 20 anos). Se eu fosse um atleta, eu seria um velho, mas pra escrever novela das 9, tô ótimo (risos).”

Quando a tentativa de conserto vira erro
“Não tô cedendo, nessa novela. Tô fazendo a história que eu queria fazer. Não houve nenhuma ingerência da TV Globo sobre nada dessa novela e eu acho que esse é o grande perigo, é o canto da sereia: achar que vai fazer alguma coisa pra agradar alguém que não é você.” Como acontece agora na novela das 9, interrompo, ao que ele segue no mesmo ritmo da frase anterior – “Isso é uma coisa muito delicada: quem é esse alguém que não é você? Acho que você tende sempre  a errar, é muito complicado isso. Acho que a TV Globo acertou historicamente porque ela foi ousada, ainda mais no passado, teve muita ousadia, ela estava à frente do seu tempo, com Roque Santeiro, com Vale Tudo, com novelas incríveis que desafiaram as pessoas. Se a gente inverter esse passo, tentar fazer alguma coisa imaginando quem é esse espectador ou espectadora, isso não vai dar certo.”

E se tivesse que ceder às vontades do espectador ou do Ministério da Justiça? “Eu não saberia”
“Eu não saberia fazer isso. Todas as histórias já foram contadas no mundo, a maneira de contá-las é que é nova. Uma boa história o público sempre vai querer, vai gostar e vai aceitar. Acho que nenhum escritor pode ter medo do conflito, de temas fortes, de tintas fortes, que é isso que faz a dramaturgia. Então, tirar essas coisas de  uma história que eventualmente não deu certo é acabar de matar a história. Tanto é que tem uma novela das 11 horas, do Walcry Carrasco (Verdades Secretas)  que tem prostituição, tem temas fortes e é um sucesso.”

Responsabilidade dramatúrgica
“Eu fui no mercado, cheguei no caixa e a mulher disse: ‘você que é aquele cara, né?, que escreve a novela?’ Falei: ‘Sou’. ‘Vai entrar agora, depois dessa, né?’ Falei: ‘É’. E ela: ‘Que responsabilidade, hein?’ Que pesadelo de Woody Allen, ‘responsabilidade’… (risos)”

Ave, Carminha!
“Quando você escreve uma coisa, você tem que acreditar, mesmo que seja mentira, que aquilo é a melhor coisa do mundo, que vai mudar o mundo. Se você não acredita, vivendo daquela história por dois anos, não funciona. Eu sempre acho as minhas histórias maravilhosas, tem que achar mesmo, senão não faço. Mas se vai ser um fenômeno ou não, só o Altíssimo é que pode me dizer.”
“Acho que a Carminha, que a Adriana Esteves fez magistralmente, essas figuras das novelas, os vilões, os sujos, os errados, as bruxas, quando todo mundo veste aquela roupa que tá pode ver e tolerar esse lado gauche que cada um tem, e exercitar isso, exorcizar isso naquela figura, nessa palhaça, nessa bruxa, nessa vilã, você entra numa sintonia muito louca com as pessoas, quase psicanalítica catártica, que foi o que aconteceu com a Carminha em especial ali. Isso eu observei muito: tinham pessoas que odiavam, que amavam, que diziam que eram iguais, pessoas que se fantasiavam de Carminha, pessoas que davam festas vestidas de personagens da novela, então a novela entrou no inconsciente das pessoas. Acho que fenômeno é isso, quando entra no inconsciente.”

Susana Vieira sobe o morro e Tony Tamos parece, e só parece, bandido
“Ela é uma atriz incrível e tem disposição incrível. (Em ‘A Regra do Jogo’) Tony não é bandido, mas é acusado de. O Tony Ramos e ela são pobres. Ela, na verdade, é uma favelada rica, é uma ex-prostituta que juntou muito dinheiro, comprou muitos barracos e é uma rica da favela, fez muito programa pra comprar os barracos. É a primeira vez que eu trabalho com ela e ela é um ente da televisão.”
Parceria com Amora Mautner e uma ‘sujeira’ bem-vinda

“Tudo o que tem no roteiro, no capítulo, eles (os atores) falam. Se vão falar ’eu vou tomar um suco de tomate’, ou ‘tô a fim de tomar um suco de tomate’, ‘vou ali tomar um suco de tomate’, tanto faz. E isso ajuda muito os atores, porque eles ficam donos das falas, sem se preocupar com os penduricalhos da escrita. Eu me identifico muito com a Amora, nesse ponto, porque ela gosta de coloquialismo, gosta de verdade na cena, a sujeira é bem-vinda, esteticamente a gente tem essa visão muito parecida do audiovisual. Não gosto de nada que engessa, que teatraliza, formaliza, nada muito formal.”

Giovanna Antonelli, a vilã
“Giovanna é uma super estelionatária, a Atena, e a gente vai saber que ela é aquilo mesmo”.
‘Eles falam no meu ouvido’
“Quando termina a novela, é estranho, parece que foram todos embora da sala, é esquisitíssimo, uma família que se despede, porque eles falam um pouco no seu ouvido, um pouco não, bastante, de repente eles param de falar. Naturalmente você escuta vozes, o dia inteiro você escuta aquilo, eles falarem, falarem, aí acaba… Sempre uma novela é filha da outra. Essa surgiu inclusive nessa coisa da Nina e da Carminha.”

Elite deixou de ser sexy
“Gente, olha o Brasil, o Brasil não é zona sul, precisa pegar um carro em São Paulo, Rio, isso aqui não é nada, nós somos gringos. Sobrevoa uma cidade brasileira, sobrevoa o Rio. O Rio é isso aqui e o mundo. (‘Avenida Brasil’ foi a primeira novela realista contemporânea a colocar o subúrbio em primeiro plano). Essa elite que era formadora de opinião, era sexy a elite das novelas, antigamente. Deixou de ser sexy, as pessoas não querem mais ver vida de grã-fino, ver coluna social, não interessa mais a ninguém. No século 21, as pessoas estão interessadas na vida delas. Ninguém quer mais saber da mademezinha, do coquetel. Essa nova classe C não é aspriacional, tem um lado muito mais pragmático. A antiga classe média é que tinha essa fantasia, essa vida dos ricos, esse glamour, a atual não tem nenhum. Você vê nas revistas de famosos, a casa de fulaninho, tem uma bancada de cozinha americana, como se fosse um glamour. Cada apartamentinho que eu vejo nas revistas, esse glamour não é pra gente.”
“Na novela, vai ter, por exemplo, o Merlô, que é o Juliano Cazarré, que namora uma que quer ser famosa, tá se lançando e vai inventar um casamento falso com ele, vai filmar a trepada, vai postar. É a Andressa (Taíssa Carvalho), ele é um pouco também (I wanna be famous), ele é um MC. Tem o Juliano Cazarré e tem o Juliano, personagem, que é o Cauã Reymond.”

Ninguém trabalha?
“No asfalto, os classes média são o Marcos Caruso, a família inteira dele, que é também uma observação muito minha do Rio. O Rio tem muita gente que você não sabe o que faz e como sobrevive, tem muito ator, artista plástico (risos), muita gente assim, não se sabe como comem, dormem e essa família é exatamente isso, do Feliciano Stuart, que é o Marcos Caruso, que é um cara que tinha dinheiro há 30 anos, ainda tem uma cobertura cheia de dívidas, caindo aos pedaços, onde moram ele, os filhos todos parasitados, a empregada que está há dez anos sem receber, que é quase dona, por direito e já não age mais como empregada, a Dinorah. Tem um filho que é personal trainner que tem só um cliente, casado com uma cabeleireira de outra classe social que veio morar ali também e fica traindo ela com uma favelada, que vem morar lá. A ex-mulher e a mulher moram lá. A ex fica esperando um dia vender aquilo pra sair com alguma coisa do casamento. A outra filha é lésbica, tatuadora, mas não tatua nada, todo mundo é vagabundo. Essas não fazem nada, nem são ricas. E tem os ricos também, como o José de Abreu.”

Menos de 40 personagens
“Tem uns 30 e poucos, cinco são motorista e empregada, e crianças. Eu sempre falo isso: tem que fazer a novela com o número de pessoas com quem eu consigo me relacionar numa semana. Jamais conseguiria me relacionar com 150 pessoas numa semana. 100 pessoas é muito pra uma semana.”
‘Rede social é manipulável; a rua, não’
“Quando eu faço a novela não quero saber nem de ler jornal, nem bom nem ruim, é muita interferência de fora. Uma coisa que não tá dando certo eu vejo no ar, converso na rua, eu falo muito com a rua. A rede social é muito manipulável, a rua não. Muita gente não conhece minha cara, adoro puxar papo sobre a novela. Adoro eu criticar minha própria novela, puxo um papo, eu malho junto, é maravilhoso. Ando muito na rua, vou comprar jornal na banca…”

A gente é produto do meio ambiente?
“Essa novela é exatamente sobre isso, eu acredito, ou um lado meio católico meu, sou semi-católico, acredita que existe livre arbítrio. Acredito que existe o bem e o mal e você pode se regenerar”
Acreita que Carminha se regenerou?
(longa pausa): “Acredito que sim. Demorei pra responder, né?”

Sugado pelo trabalho
“O problema da televisão é que você não tem tempo pra um processo artístico. Tem gente que faz um processo artístico em cima da hora, eu não sou assim, não acredito muito nisso. Dois anos antes da novela entrar no ar eu já trabalho muito. Eu tenho que viver dois anos intensamente disso, é muito longo, são oito meses, dois anos é o mínimo. Durante a novela, eu só me leio e me assisto por oito meses, sou autofagocitante, é o perigo da novela, vivo numa ilha. Assisto o capítulo antes de ir pro ar. (E já interferiu em alguma coisa de que não gostou?, pergunto) “Bastante”, ele responde. Assisto no ar, antes de ir pro ar, e só aí já são duas horas por dia, durmo oito horas, sobram 14 pra escrever.”

Sonha com os personagens?
“Sonho. E eu chamo muito os atores pelo nome dos personagens, eu chamava muito a Glória Menezes de Irene (A Favorita)”.

Referências literárias
“Tem muito de romance russo nessa coisa de você testar o limite, o caráter das pessoas, o que é  tolerável, o que não é, o quanto elas podem ser sujas, tanto nessa novela como na Avenida Brasil, muito romance russo, Nastássia Filippovna no Idiota (Dostoiévski). Tem essa ideia, você vai ver mais adiante, de um homem torto que se apaixona pela ideia de ser um santo, tem muito a ver com os (Irmãos) Karamasov (Dostoiévski). Tem muito a ver com a política, você se apaixona pela imagem que fazem de você, é um santo.”
(E quem é?, pergunto. “Não vou falar”, responde João. Acho que é o Nero… Silêncio, sorriso, e fim de papo)

Previsão de duração: 167 capítulos, ou até março de 2016


Elenco: Alexandre Nero (Romero Rômulo), Tony Ramos (Zé Maria), Susana Vieira (Adisabeba), Cauã Reymond (Juliano), Cássia Kis Magro (Djanira), Vanessa Giácomo (Tóia), Giovanna Antonelli (Atena), Marco Pigossi (Dante), Alexandra Richter (Dalila), Allan Souza Lima (Nenemzinho), Amauri Oliveira (Dênis), Barbara Paz (Nelita), Bruna Linzmeyer (Belisa), Bruno Mazzeo (Rui), Carla Cristina Cardoso (Dinorah), Cris Viana (Indira), Cristiane Amorim (Conceição), Danilo Santos Ferreira (Iraque), Deborah Evelyn (Kiki), Douglas Tavares (Abner), Du Moscovis (Orlando), Fabio Lago (Oziel), Felipe Roque (Kim), Fernanda Souza (Mel), Giovanna Lancellotti (Luana), Giselle Batista (Duda), Jackson Antunes (Tio), João Baldasserini (Victor), Johnny Massaro (Cesário), José de Abreu (Gibson), Julia Rabelo (Úrsula), Juliano Cazarré (Merlô), Karine Telles (Sumara), Letícia Colin (Paty), Letícia Lima (Alison), Maeve Jinkings (Domingas), Marcello Novaes (Vavá), Marcos Caruso (Feliciano), Monique Alfradique (Tina), Osvaldo Mil (Juca), Otávio Muller (Breno), Paula Burlamaqui (Sueli), Renata Sorrah (Nora), Ricardo Pereira (Faustini), Roberta Rodrigues (Ninfa), Suzana Pires (Janete), Thaissa Carvalho (Andressa Turbinada) e Tonico Pereira (Ascânio), entre outros.