RIO - Rodrigo Lombardi e Camila Queiroz ensaiam uma cena de sexo, ainda vestidos, diante de Mauro Mendonça Filho, diretor de núcleo e geral do sucesso “Verdades secretas”, em um cenário montado no Projac.
— Agarra, agarra. Tem que tirar a roupa errado, com ansiedade. A saudade é mais emocional que sexual — instrui o diretor.
Ao lado dos protagonistas da trama das 23h, ele se deita no chão para orientar o comportamento do casal da ficção:
— Encosta, encosta. Os dois vieram de um orgasmo há 20 segundos. Rodrigo está mais largadão, não tão grudento.
Maurinho, como é conhecido no estúdio, gosta de estar ao lado dos atores sempre que pode.
— Ainda não consigo e talvez não consiga ser aquele cara que faz o trabalho no começo, larga e deixa — explica ele, que divide a direção-geral com André Felipe Binder e Natália Grimberg: — Agora, até por um excesso de coisas que venho fazendo nos últimos cinco anos, tenho delegado mais, mas nunca parei de dirigir.
A novela marca a terceira parceria entre ele e o autor Walcyr Carrasco — as outras foram “Gabriela” (2012) e “Amor à vida” (2013). Aos 50 anos, o filho dos atores Mauro Mendonça e Rosamaria Murtinho percorreu um longo caminho: chegou à Globo aos 18 anos, onde trabalhou como editor e assistente de direção em tramas como “Vale tudo” (1988) antes de chegar a diretor, em “Renascer” (1993). Mauro abre a nossa série de reportagens com os principais diretores de novelas. Na entrevista a seguir, ele fala de suas referências, arrependimentos e conta como rege uma novela.
Mauro Mendonça Filho ensaia cena de sexo com Rodrigo Lombardi e Camila Queiroz - Bárbara Lopes
Seus pais são atores. Você nunca teve essa vontade?
Eu flertei. Fiz curso de teatro por um ano, já com o foco de entender o que poderia aprender como diretor. Aos 14 anos, era obcecado por cineastas como (o alemão) Fassbinder. No colégio, já dirigia os outros. Mesmo baixinho e pequeno, era engenhoso. Com 16, 17, comecei na assistência de direção em teatro, e aos 18 vim para a Globo fazer estágio em edição. Fui do tempo do preconceito no colégio, meu pai era o viado, minha mãe, a piranha. Mas a paixão pelo artístico é hereditária. E, no fundo, sempre serei aquele garoto que gostava de montar histórias no quarto, sacou? Agora elas ganharam cenários e orçamentos altíssimos (risos).
Quais foram suas primeiras referências? Você se lembra?
De filme é Mazzaropi, “Os trapalhões”, “Aventuras com tio Maneco” e coisas que impactaram a gente quando moleque, como “Tubarão”, “Star wars”. E por ser de família artística, meu pai nos levava para ver coisas como “Solyaris”, de Tarkovski. Saía do infantil para aquela coisa adulta difícil de ser entendida.
Era rato de cinemateca?
Eu era sócio de um videoclube próximo à minha casa fazia 25 anos. Quando eles fecharam, me deram o privilégio de ser o primeiro a comprar filmes. Comprei 150 títulos, gastei uma grana, mas com coisas raras do cinema oriental. Conheço muito sobre cinema vietnamita, coreano, que é ótimo para a TV daqui porque tem a mesma pegada emocional nossa. Em casa tenho um arsenal cultural com 3 mil títulos, é um lugar de pesquisa mesmo.
E como foi esse seu desenvolvimento dentro da Globo?
Eu era editor no Jardim Botânico. O João Paulo Carvalho, um editor ótimo, me pegou e fizemos um especial, o “Antonio Brasileiro” (1987). Eu era meio maluquinho, inventava, trabalhava de madrugada... perdi um pouco de juventude. Dennis Carvalho me chamou para ser assistente de direção de “Vale tudo”, e fiz de forma bem abusada. Aí fiz “O dono do mundo” (1991), “Memorial de Maria Moura” (1994). E o Guel Arraes me chamou para o “Comédia da vida privada”. Jovem e criativo, meu erro foi não ter sabido canalizar isso só para o trabalho. O sucesso vai transbordando, você vai se dando mal, e algumas portas começaram a se fechar. Você acha que a vida está ganha e não lida bem com fracassos. Passei por uma entressafra bem grande, de trabalhos que não funcionavam. A vida pessoal estava ótima, não a profissional. Isso pode dar um certo desespero. Aí fui fazer teatro e começou a fluir bem. Na Globo, virei diretor de núcleo tarde, se pensar que já estou aí há um tempo...
O que você acha que atrapalhou o seu trabalho?
No passado, talvez eu não soubesse lidar com autores, tivesse ansiedade de querer ser autoral demais, e isso os deixava ameaçados. Coloquei o pé no freio. A autoralidade é legal, mas a obsessão não pode ofuscar a relação com o autor. Quando relaxei, isso passou a vir à tona de forma sem conflito. Você tem que ser fiel, respeitoso, e inventar o que quiser, mas fazer coisas que acrescentem ao trabalho do autor.
O que marcou sua volta?
Relaxamento. Você tem que estar relaxado e solto. O medo de perder o fio da meada paralisa. E tive um encontro com o Roberto Talma (1949-2015). Na época de “O astro”, disseram para ele que eu estava arrebentando e perguntaram o que ele tinha feito comigo. Ele respondeu: “Eu só dei carinho.” Devo muito ao Talma.
Como nasce um trabalho?
“Verdades secretas”, por exemplo, foi assim: Eu estava em “Amor à vida” cansado da linguagem da novela, aí fui para São Paulo gravar cenas de Maria Casadevall com o Caio Castro e quis fazer umas coisas loucas. Combinei com Walcyr que faria uns improvisos, umas invenções. O Carlos Henrique Schroder (diretor-geral da Globo) adorou as cenas e disse para o Walcyr que precisava de coisas mais urbanas. Walcyr então explicou que tinha uma novela das 23h e que me queria como diretor. Eu gosto mais do Walcyr escrevendo esse tipo de história do que no tema água com açúcar. Ele faz assuntos delicados parecerem conversa de bar sem chocar. Isso, acho que é virtude minha também, pegar umas coisas heavy e transformar em algo que se encaixe no veículo.
E como funciona sua parceria com os autores?
A novela não teve sinopse. Pela nossa relação, Walcyr não quer criar ligação com o elenco, ele prefere que o diretor tenha a confiança dos atores. A gente discute personagem por personagem. Ao longo dos capítulos, trocamos uma bola. Às vezes tem uma subjetividade do personagem que a gente tem que perguntar. Temos que ter respeito à história.
Como diretor, você além de dirigir, precisa administrar. Como lida com isso?
É a parte insuportável do trabalho porque é muita gente e a cada hora um dá defeito, mas você não pode dar. Uma novela longa, que lida com a emoção, leva as pessoas a lugares diferentes. O negócio é respirar fundo. Eu durmo bem 85% dos dias, tento não me tornar vítima do ofício. Tento não alimentar discussões porque é um saco. Se o protagonista dá defeito, a gente tem que conversar. Aí o ator tem problema de saúde, na vida pessoal, afinal quem tem a vida 100% equilibrada? Você tem que chamar num canto para focar. Também existem casos de rejeições de colegas que não conseguem dar beijo no outro, não gostam de fazer cena juntos porque não se gostam. Às vezes o cara não rende, perde o personagem no meio. Às vezes, o ator está tratando mal camareiro. E isso eu não tolero. Não respeito quem puxa saco de diretor e trata mal o camareiro. Meu esquema é o da camaradagem. Gosto de gente simples no entendimento da vida, sacou? Gente que curte aquela coisa heavy, que vê maldade em tudo, não existe.
Aquela imagem do diretor carrasco ficou para trás?
É um clichê antigo, não existe mais. Esses clichês todos mudaram, até o teste do sofá... hétero!
Hétero?
Sim, as meninas já chegam com 18, 19 anos e ferram com nossas vidas, podem acabar com você, entendeu? Os meninos, os bofes, chegam e te dão uma espinafrada. Já os gays chegam com os olhos arregalados, o pessoal vai em cima direto. Mas tudo mudou, não existe mais isso de diretor déspota. Ele tem que ser um diplomata, um alquimista, um gestor com alquimia, com certa magia para transformar atores e cenas naquilo que o espectador quer ver. Se você tem aquele brilho no olhar, não precisa de tirania, somente firmeza.
Um diretor trabalha com vários autores. Como deixa sua marca nessas parcerias?
Há diretores que imprimem a mesma marca e os camaleônicos, meu caso. Não acho que a vida está dentro de mim, não preciso colocar tudo o que é meu, quero me aproximar de universos distintos. Kubrick não parece que é o mesmo cara por trás de “Spartacus”, “Laranja mecânica”. Os assuntos são diferentes, e os tons de ator têm que mudar. Ainda quero mudar radicalmente no que diz respeito às lentes. Vou começar o próximo trabalho zerado.
Você disse que voltou à forma em “O astro”. Depois fez “Gabriela”, “Amor à vida" e “Dupla identidade”. Está satisfeito?
Sabe pessoas que não se arrependem de nada? Não acredito em gente assim. Vou dormir e me arrependo de dez coisas ao longo do dia. Não acredito em não mudar de opinião. Hoje, meu grau de satisfação é grande, mas a inquietação me move. Gostaria de fazer outras coisas, até a própria “Gabriela”, queria entender mais o país, achar uma brasilidade mais tosca. Porque quando vejo Glauber Rocha acho que tinha que ter entendido mais o Brasil e a Bahia nas coisas que fiz. Duvido que um cara que monte Nelson Rodrigues no teatro ache que fez a montagem definitiva.
Você se arrepende da caracterização da Juliana Paes?
Nem um pouquinho, sendo honesto. Me arrependo mais da escalação da Giulia Gam em “Dona Flor e seus 2 maridos”(minissérie de 1998). Gabriela é um símbolo feminino. E quando pessoas veem tal figura como símbolo, não adianta querer mudar. Gabriela tinha 26, Juliana tinha 32, mas Gabriela não é ninfeta, nunca foi. Juliana fez suuperbem, com leveza, é símbolo sexual queira ou não. Ela e o Humberto (Martins) faziam bem, se não arrebatou o público é outra questão.
Fazer novela no horário das 23h foi complicado?
Quando peguei o horário, concluí que precisava de algo a mais, um comportamento politicamente incorreto, sexualidade, violência e um pouco de porra-louquice. O horário está mudando, ajudado pelo Zé Luiz (José Luiz Villmarim) em “O rebu”. Ele deixou uma batata-quente na nossa mão. O horário está migrando para uma renovação de linguagem, o que é legal. “Verdades secretas” eu fiz sem cortes, ela inteira com duas câmeras no estúdio. É uma novela mais artesanal e sofisticada que deu certo.
O beijo gay de “Babilônia” foi muito criticado. Para você, o que faz o espectador aceitar “Verdades secretas”, novela com temática forte?
Nossa função é seduzir. Tento seduzir com muitas coisas e não consigo. O público conservador sempre esteve aí. Qualquer trabalho tem que dialogar com os dois tipos de espectador. O Brasil não é avançado. Depois do beijo de “Amor à vida”, o erro foi achar que tínhamos chegado a outro lugar. A gente faz uma novela da pá virada, só que os conservadores veem como denúncia e espaço para a própria fantasia. Nenhum ser humano fica sem fantasia, a ficção está aí para isso. Ao mesmo tempo, tem a coisa liberal da novela que agrada.
O que “Amor à vida” acrescentou à sua carreira?
Tenho o maior orgulho de ter dirigido uma cena como essa e de vê-la marcada na teledramaturgia como um divisor de águas. Não querendo ser piegas, mas tem uma hora que o trabalho migra daquela função vazia de entreter para fazer uma espécie de bem, sacou? Eu, o Walcyr e a empresa soubemos três meses antes, os atores, com um mês. Chamei o Mateus Solano e o Thiago Fragoso e pedi que se jogassem. Eu mesmo me livrei de muito preconceito. É tudo muito igual, paixão, sentimento, desejo. Foi uma grande sacada do Walcyr, porque lá no capítulo 30/40, percebemos que o casal principal não tinha funcionado. Aí ele antecipou uma cena bem homofóbica do César (Antonio Fagundes) com o filho do capítulo 120 para o 55. Gravando, percebi que nossa nova trama principal estava ali. O beijo começou com Fagundes e Mateus e acabou com eles.
Vocês gravaram três versões do beijo, certo?
Não. Quatro. Só que um era uma bitoca rápida que nem mostrei à direção. No dia do último capítulo, eu, Wolf Maya (diretor de núcleo) e Walcyr mostramos as opções. Começamos do heavy ao mais leve. Eles pularam da cadeira e disseram que não estava aprovado. Voltando para casa, me ligaram. Voltei para a edição.
Como foi sua experiência em “Dupla identidade”?
Se você liga a TV nos Estados Unidos, percebe que não há diferença entre a imagem do canal aberto e a do canal fechado. A Globo descobriu isso tardiamente, mas a tempo. E me encomendou um seriado que não poderia dever nada aos lá de fora. Fiz uma lista de dez regras básicas que diferenciam uma novela de uma série. Exemplo? Se na novela, um diretor de hospital pode comer a secretária, na série o que importa é que ele entenda de medicina. Novela tem narrativa oral, é didática, série não. Ensaiei por 50 dias. Trabalhamos intensamente para que Bruno (Gagliasso) chegasse no lugar da psicopatia que era estranho. É macabro, bem macabro. Queria Edu com olhar que atravessasse, como se só visse carne nas mulheres. E ele foi, né? Eu não quero desistir da segunda temporada. A grande virtude é mudar o psicopata.
Você já fez novela ruim?
Ahhh, já fiz novela ruim, sim. Quando percebe que está num fracasso no capítulo 30 e ainda tem 190 pela frente é um desespero, vira sistema. Aí você sobrevive de cinismo.
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