terça-feira, 22 de setembro de 2015

Zean Bravo entrevista Walcyr Carrasco para O Globo

RIO - Depois de entrar para a história da teledramaturgia por levar pela primeira vez ao ar um beijo entre dois homens, no último capítulo da novela “Amor à vida”, exibida às 21h pela Globo em 2013, Walcyr Carrasco voltou a fazer barulho na faixa das 23h ao transformar em sucesso de audiência uma história que une prostituição, uma modelo viciada em crack definhando diante do público e um triângulo amoroso entre uma ninfeta, um empresário sem escrúpulos e a mãe dela. Com média de 19 pontos desde a estreia, e recorde de 27 pontos (no Rio), “Verdades secretas” entrou no ar em junho e chega ao fim nesta sexta-feira como a novela de maior repercussão do momento.

Construída ao redor da agência de modelos comandada pela empresária Fanny (Marieta Severo), a trama sobre a menina Angel (a modelo Camila Queiroz, estreante na TV), o empresário Alex (Rodrigo Lombardi) e a mãe da moça, Carolina (Drica Moraes) esteve entre os assuntos mais comentados das redes sociais desde sua estreia, seja pelas fartas cenas de sexo (a nudez de Rodrigo Lombardi gerou infinitos memes na web no primeiro capítulo), ou pela temática forte (com direito a Grazi Massafera transfigurada e acabando na cracolândia). Aos 63 anos, até recentemente mais conhecido pelas histórias leves das 18h e 19h, Carrasco prepara sua volta ao horário das seis com “Candinho” (título provisório), que estreia em janeiro. A seguir, ele fala de polêmicas e novelas.


O mesmo espectador que rejeitou “Babilônia” aceitou a temática forte de “Verdades secretas”? Por que a novela não chocou?

Acho que me tornei parceiro do público em suas preocupações com o mundo. As pessoas têm o direito de saber muita coisa que estava oculta. E, pela dramaturgia, pude falar desses temas.

O termo “book rosa” (modelos que se prostituem) caiu na boca do povo. A abordagem da novela é corajosa? Por que a prostituição atrai tanto interesse?

Sim, fui corajoso mesmo porque tenho muitos amigos donos de agências que me ajudaram com informações. E que concordaram que eu precisava falar dos profissionais que envolvem garotas, menores de idade, nesse esquema. Não posso citar nomes, mas há alguns anos um grande empresário paulista foi processado pela mãe de uma garota de 13 anos, não é impressionante? Ele havia se tornado sócio de uma agência para se aproximar das garotas. Não tenho preconceito com a prostituta. Mas tenho, sim, com a cafetina, que agencia e ganha dinheiro às custas dela.

Que retorno você teve dos profissionais da moda?

O retorno dos profissionais sérios foi o melhor possível. Claro que alguns perderam modelos (houve pais que proibiram as filhas de entrar no ramo após verem a novela). Sabem que foram atingidos. Por outro lado, há até conta de Instagram criada por gente que denuncia books rosas. Um booker de uma grande agência foi demitido porque publicaram um face dele combinando um book azul (versão masculina do book rosa). Vixe, ele deve me odiar!

Em geral, as novelas falam das drogas de modo insinuado. Em “Verdades secretas”, os personagens cheiram, usam crack, numa linguagem próxima das séries. Por que mostrar a droga assim?

Acho que a política sobre drogas está errada, defende a hipocrisia. Penso o contrário. É preciso mostrar, inclusive para trazer o assunto à tona.

Em entrevista ao GLOBO, o diretor de núcleo Mauro Mendonça Filho disse que vocês estão fazendo uma novela da pá virada, mas que os conservadores a veem como denúncia e espaço para a própria fantasia. Qual é a sua opinião?

Maurinho se expressou de um jeito muito divertido, mas acho que a questão é mais profunda. Os conservadores também têm família. Entenderam que não estou defendendo a droga, por exemplo. Mas mostrando até onde uma pessoa pode chegar.

Que marca a novela vai deixar?

Acho que ela ajudou o público a entender que muitas vezes, por trás do glamour, há um lado obscuro. Muitos pais terão mais cuidado com as filhas diante de oportunidades que aparentemente parecem incríveis. E também falou abertamente de temas que devem ser discutidos em família, como as drogas, e até mesmo o aborto.

As cenas de sexo e nudez foram muito comentadas. Você indica no texto exatamente o que quer?

O olhar do diretor é tudo. E tive uma parceria grande com o Maurinho. Ele entendeu todas as intenções, tudo que eu queria e descobriu até o que eu nem sabia que queria.

Gilberto Braga disse ao GLOBO, na época de “Babilônia”, que o país está mais careta, que não é mais possível ter nudez em novela, por exemplo. Concorda?

Respeito a opinião do Gilberto, que é um grande autor. Ver “Vale tudo” (1988) foi fundamental para minha formação como autor. Mas acredito que todos os temas são possíveis, e o público gosta, sim, de temas ousados, como provou com “Verdades secretas”.

Por que a cena de Alex nu foi tão comentada?

A beleza masculina ganhou espaço, principalmente devido à liberação da mulher. Hoje a mulher tem coragem de dizer quando acha um homem bonito.

Alex paga a uma menor por sexo, se casa com a mãe dela para ficar perto da menina, acha que pode comprar tudo. Mesmo assim, parte do público torce por ele. Por quê?

É a magia do ator. Rodrigo Lombardi é extremamente carismático.

Fanny será punida no final? Você teve algum pudor ao botar Marieta Severo sendo chamada de velha em cena repetidamente?

Quem disse que será punida? Quando convidei a Marieta, num jantar, disse exatamente o que seria o papel. E que ela seria chamada de velha e tudo mais. Jogo aberto. Ela aceitou, me deixando livre para escrever.

Após “Amor à vida”, muita gente achou que as novelas tinham avançado ao mostrar o afeto gay. Depois, o público rejeitou o beijo gay de “Babilônia”. Retrocedemos?

Não acho que houve retrocesso nem que “Amor à vida” avançou. Em dramaturgia há variações mínimas que às vezes fogem ao nosso entendimento. Essas teses sobre retrocesso e conservadorismo são apenas teses.

“Candinho” tratará do amor de dois irmãos de criação. Não é polêmico para 18h?

A novela é uma comédia, não tem nada de polêmica. É até ingênua. Vocês verão.



Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/revista-da-tv/autor-de-verdades-secretas-que-chega-ao-fim-na-sexta-diz-que-abordou-sexo-drogas-como-queria-17563467#ixzz3mVeMDLvq 
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segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Correio 24 horas entrevista Walcyr Carrasco

Muito bem na audiência - média de 18 pontos na Grande São Paulo (cada ponto equivale a 67 mil domicílios) - Verdades Secretas chega ao fim na próxima sexta-feira, com alguns finais já revelados e outros guardados a sete chaves.

Entre os finais mais aguardados está o do triângulo central formado por Angel (Camila Queiroz), Alex (Rodrigo Lombardi) e Carolina (Drica Moraes). Em entrevista ao CORREIO, o autor Walcyr Carrasco faz um balanço da trama, elogia os protagonistas e adianta novidades de sua próxima novela Candinho, que estreia na faixa das 18h da Globo no próximo ano.

Tua novela aborda temas fortes como prostituição e drogas e está indo muito bem na audiência. A que o senhor credita o sucesso? 
Eu acho que justamente aos temas polêmicos. As pessoas sentem necessidade de discutir a realidade, sem hipocrisia. A novela procurou abrir a discussão e mostrar as armadilhas que podem surgir na vida das pessoas.

Houve polêmicas com as agências de modelo envolvendo o book rosa retratado na novela. Como encarou isso?
Acho normal, já que muitas agências não fazem e podem ter se escandalizado com o fato do tema ser levantado. Para outras, a carapuça serviu. Mas eu costumo dizer que o país é hipócrita em vários temas: a maconha é proibida, mas qualquer adolescente com dinheiro pode comprar na esquina em qualquer cidade do país; o aborto é proibido, mas uma mulher rica faz, paga caro e não sofre por isso.

Já a mais pobre vai para clínicas sem condições e corre o risco de morrer, como é até comum. Então, que proibição é essa? Rico pode e pobre não pode, é isso? Todo mundo sabe onde é a Cracolândia em São Paulo, mas ninguém dá jeito. E da mesma maneira, sabe-se que muitas agências levam garotas ao book rosa, só que como é um mundo glamourizado, de luxo, finge-se que não existe. A novela teve a coragem de tirar as máscaras.

Recentemente, alguns dos finais da novela vazaram na imprensa. Queria saber se isso incomoda muito o senhor e se de fato pretende mudá-los para surpreender o público?
Olha, o jornalista faz seu trabalho e eu o meu. Se o jornalista é bom e consegue descobrir o final, parabéns!!! Agora será que o final que vazou é mesmo o que vai ao ar?

A história principal, entre Angel, Carolina e Alex, tem dado o que falar. Como o senhor chegou nesta ideia e o que está achando das atuações de Drica, Camila e Rodrigo?
A ideia surge por intuição, é um processo criativo que não sei explicar. Mas as atuações da Drica, do Rodrigo e da Camila são maravilhosas.

Qual o balanço que faz de Verdades Secretas como um todo?
Uma novela de tanto sucesso e repercussão só pode deixar um autor feliz. Estou muito contente com o resultado e faço questão de assistir sempre.

O senhor já tem outro projeto para a faixa das 18h. Como está sendo retornar para o horário onde escreveu tantos sucessos? Foi um desejo seu ou da emissora?
Eu pedi, podem verificar, na entrevista da festa de Amor à Vida. Anunciei que queria escrever uma novela das 18h. Já tinha a ideia. A Globo me convidou para antes escrever a primeira novela inédita das 23h e topei. Aí surgiu a ideia de Verdades Secretas, mas não quis abrir mão da das 18h.

O que podemos esperar de Candinho?
Muito humor, romance e ingenuidade. É meu lado leve.

LINK http://www.correio24horas.com.br/single-entretenimento/noticia/autor-faz-balanco-de-verdades-secretas-novela-teve-a-coragem-de-tirar-as-mascaras/?cHash=24e0c101296a098e862ea6dcfeab4f80

Mauro Mendonça Filho é entrevistado por Lígia Mesquita para Folha de SP

Mauro Mendonça Filho, 50, diretor-geral de “Verdades Secretas”, recebeu a missão de manter a inovação de linguagem no horário das 23h da Globo herdada do folhetim anterior, “O Rebu”.

Repetindo a parceria com o autor Walcyr Carrasco, com quem trabalhou em “Gabriela” e “Amor à Vida”, ele imprimiu um tom de seriado a “Verdades”. A trama, que acaba dia 25, tem média de 19 pontos no Ibope na Grande SP (cada ponto equivale a 67 mil casas).

O diretor falou à coluna:

Como você avalia a novela ?
Tivemos retorno bom de crítica, audiência. Passamos ao largo de qualquer moralismo. A novela ao mesmo tempo que é amoral é moralista. Sendo honesto, a questão de moralidade que teve em “Babilônia” ajudou.

Ajudou de qual maneira?
Todo mundo achou que estávamos em tempos mais liberais. Aí vimos que era ‘opa, peraí’. Careta adora um pecado, sacou? Pensamos: vamos fazer o que é proibido, porque aí pode. Talvez no início nossa visão fosse menos moralista. E o maior público é conservador.

Mudaram algo na trama?
Humanizamos mais a Angel (Camila Queiroz). Passei a tratá-la não como uma garotinha inglesa que faz prostituição e não está nem aí. Passei a mostrar dor, culpa. Comecei a mesclar amoralidade com moralismo. Isso sempre esteve lá no texto, mas talvez a gente estivesse acreditando que não precisasse de um certo moralismo. E precisa. .

A direção melhora um texto?
Genericamente, nunca é possível melhorar um texto. Você pode dar uma roupagem nova, mas não há milagre. Quando você tem texto maravilhoso, dá para fazer coisas impensáveis.

As novelas deviam usar mais a linguagem dos seriados?
O seriado pega do folhetim e vice-versa. A novela devia aprofundar as funções dos personagens. O cara é cientista e só namora? Fica vazio. De linguagem, as novelas deviam pegar menos didatismo, menos close, menos olho lacrimejando, menos ‘overacting’. Argentino chegou num lugar legal de interpretação. Aqui há uma certa vaidade da emoção. A gente é um povo que chora em hino, na hora de bater pênalti. Como se a frieza de raciocínio não ajudasse.

Houve muito ensaio com o elenco de “Verdades”. Faz muita diferença para o trabalho?
Total. O ator tem que…[pausa] TV hoje em dia é : a onça tá vindo no mato e você tem que acertar na cabeça. Não adianta acertar na pata que ela vai te engolir. O ator tem que chegar no primeiro dia de gravação já seguro de qual é o personagem. Tem que chegar lá já pensando em fazer bem, não em descobrir o personagem.
O cara domina a coisa, ensaia e aí tá bom. Chega no set e já sabe.
Sou diretor de ator, sou de teatro. Uma das características do meu trabalho é dizer que neguinho tá bem. E os atores estão bem.
Gosto de ver ator bom quando vou ao teatro, filme com ator bom. Gosto de linguagem, mas gosto de ator bom. Sou filho de atores [Mauro Mendonça e Rosamaria Murtinho]. Se o ator tá bem, meu trabalho tá legal. E não compito. Vai lá e brilha, porque isso leva todo mundo junto a galope.

Há uma cultura de improviso na TV?
Não acho isso é uma regra. Sou muito fiel ao autor com quem tô trabalhando, às ideias e às cenas dele no texto. Eu não julgo muito. Acho que o público tá cada vez mais exigente com repetições, didatismo. O público quer ir além um pouco. O público melhorou muito nos últimos anos.
Qualquer reflexo de programa que não esteja funcionando é de uma mudança que nego tá querendo. Seja para o bem, para o mal, moralista ou não.

Qual mudança vê no público?
[Os conservadores] estão saindo do armário, como disse a Fernanda Montenegro. Sou da opinião que para ter uma boa esquerda tem que ter uma boa direita. Para a réplica tem que ter a tréplica.
Acho absolutamente normal ter conservadorismo, o público é esse aí mesmo. Mas também vi reações maravilhosas do beijo gay em “Amor à Vida”. Aí você vê que tem gente querendo que a dramaturgia reflita mudanças. E acho que as pessoas estão mais exigentes em relação a temas, conteúdo e narrativa.
Acho que durante muito tempo o sistema novela funcionou meio que “quase tudo dava certo”. Agora tem que ralar mais.
Tem que pegar o público pela garganta.

Você sentia falta de uma linguagem mais parecida com a realidade?
O sistema de quatro câmeras [o comum em novelas] foi criado na década de 50, com aqueles shows antigos como da Lucille Ball, “Família Trapo”. É uma certa teatralização de palco italiano.
Aí todas as novelas são iguais, você acaba colocando sua linguagem dentro de um sistema.
Mas “Verdades Secretas” é uma novela menor, tem quatro capítulos por semana. Usamos duas câmeras e fizemos cenários de quatro paredes.
O ângulo não é o mesmo de uma cena pra outra, você tá dentro da casa das pessoas e não percebe que é uma boca de cena. os atores se sentem muito mais dentro dos personagens.

Na época de “O Astro” (2011) você falou que existia uma patrulha da originalidade [o diretor foi acusado de plagiar uma cena da  HQ “Watchmen” nesta trama e de copiar uma cena do filme “O Expresso da Meia-Noite em “Amor à Vida” (2013)]. Continua achando isso?
Acho que tem que ter critério. Eu fui mais cínico, achava isso, que em televisão se imita mesmo a torto e direito. Muito embora as referências visuais são as que mais chamam a atenção e as literárias, não. Tá cheio de histórias inspiradas em fatos reais e ninguém fala nada. Vocês jornalistas também escrevem tendo referências de texto.
Aí o visual acaba sendo o plágio mais evidente. Todo mundo de certa forma puxa uma referência daqui ou ali, mas você aplica de uma certa forma que dá uma burlada nisso.
Mas o visual não pode mais tanto, é o mais evidente.
Penso hoje diferente. Você pode até pegar uma referências mas tem que fazer diferente.
No caso, eu tinha feito uma cena em “Amor à Vida” igualzinha ao “Expresso da Meia-Noite”.
Acho que eram tempos mais cínicos de televisão. Agora, a gente deixa de ser referencial e vira referência, a exigência tem que ser um pouco maior. Tem que ter certos pudores.

Qual foi o maior desafio em “Verdades Secretas”?
Mostrar o vício da Larissa [Grazi Massafera] em crack, sim, foi difícil. Ela lá na cracolândia é uma identificação da gente, nós pequenos burgueses lá. Botei pilha para o Walcyr fazer uma cracolândia. E a ideia foi mostrar uma visão de compaixão. Há uma ideia de que viciado em droga é marginal. É uma doença.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Mauro Mendonça Filho é entrevistado pelo jornal O Globo

RIO - Rodrigo Lombardi e Camila Queiroz ensaiam uma cena de sexo, ainda vestidos, diante de Mauro Mendonça Filho, diretor de núcleo e geral do sucesso “Verdades secretas”, em um cenário montado no Projac.

— Agarra, agarra. Tem que tirar a roupa errado, com ansiedade. A saudade é mais emocional que sexual — instrui o diretor.

Ao lado dos protagonistas da trama das 23h, ele se deita no chão para orientar o comportamento do casal da ficção:

— Encosta, encosta. Os dois vieram de um orgasmo há 20 segundos. Rodrigo está mais largadão, não tão grudento.

Maurinho, como é conhecido no estúdio, gosta de estar ao lado dos atores sempre que pode.

— Ainda não consigo e talvez não consiga ser aquele cara que faz o trabalho no começo, larga e deixa — explica ele, que divide a direção-geral com André Felipe Binder e Natália Grimberg: — Agora, até por um excesso de coisas que venho fazendo nos últimos cinco anos, tenho delegado mais, mas nunca parei de dirigir.

A novela marca a terceira parceria entre ele e o autor Walcyr Carrasco — as outras foram “Gabriela” (2012) e “Amor à vida” (2013). Aos 50 anos, o filho dos atores Mauro Mendonça e Rosamaria Murtinho percorreu um longo caminho: chegou à Globo aos 18 anos, onde trabalhou como editor e assistente de direção em tramas como “Vale tudo” (1988) antes de chegar a diretor, em “Renascer” (1993). Mauro abre a nossa série de reportagens com os principais diretores de novelas. Na entrevista a seguir, ele fala de suas referências, arrependimentos e conta como rege uma novela.


Mauro Mendonça Filho ensaia cena de sexo com Rodrigo Lombardi e Camila Queiroz - Bárbara Lopes
Seus pais são atores. Você nunca teve essa vontade?

Eu flertei. Fiz curso de teatro por um ano, já com o foco de entender o que poderia aprender como diretor. Aos 14 anos, era obcecado por cineastas como (o alemão) Fassbinder. No colégio, já dirigia os outros. Mesmo baixinho e pequeno, era engenhoso. Com 16, 17, comecei na assistência de direção em teatro, e aos 18 vim para a Globo fazer estágio em edição. Fui do tempo do preconceito no colégio, meu pai era o viado, minha mãe, a piranha. Mas a paixão pelo artístico é hereditária. E, no fundo, sempre serei aquele garoto que gostava de montar histórias no quarto, sacou? Agora elas ganharam cenários e orçamentos altíssimos (risos).

Quais foram suas primeiras referências? Você se lembra?

De filme é Mazzaropi, “Os trapalhões”, “Aventuras com tio Maneco” e coisas que impactaram a gente quando moleque, como “Tubarão”, “Star wars”. E por ser de família artística, meu pai nos levava para ver coisas como “Solyaris”, de Tarkovski. Saía do infantil para aquela coisa adulta difícil de ser entendida.

Era rato de cinemateca?

Eu era sócio de um videoclube próximo à minha casa fazia 25 anos. Quando eles fecharam, me deram o privilégio de ser o primeiro a comprar filmes. Comprei 150 títulos, gastei uma grana, mas com coisas raras do cinema oriental. Conheço muito sobre cinema vietnamita, coreano, que é ótimo para a TV daqui porque tem a mesma pegada emocional nossa. Em casa tenho um arsenal cultural com 3 mil títulos, é um lugar de pesquisa mesmo.

E como foi esse seu desenvolvimento dentro da Globo?

Eu era editor no Jardim Botânico. O João Paulo Carvalho, um editor ótimo, me pegou e fizemos um especial, o “Antonio Brasileiro” (1987). Eu era meio maluquinho, inventava, trabalhava de madrugada... perdi um pouco de juventude. Dennis Carvalho me chamou para ser assistente de direção de “Vale tudo”, e fiz de forma bem abusada. Aí fiz “O dono do mundo” (1991), “Memorial de Maria Moura” (1994). E o Guel Arraes me chamou para o “Comédia da vida privada”. Jovem e criativo, meu erro foi não ter sabido canalizar isso só para o trabalho. O sucesso vai transbordando, você vai se dando mal, e algumas portas começaram a se fechar. Você acha que a vida está ganha e não lida bem com fracassos. Passei por uma entressafra bem grande, de trabalhos que não funcionavam. A vida pessoal estava ótima, não a profissional. Isso pode dar um certo desespero. Aí fui fazer teatro e começou a fluir bem. Na Globo, virei diretor de núcleo tarde, se pensar que já estou aí há um tempo...

O que você acha que atrapalhou o seu trabalho?

No passado, talvez eu não soubesse lidar com autores, tivesse ansiedade de querer ser autoral demais, e isso os deixava ameaçados. Coloquei o pé no freio. A autoralidade é legal, mas a obsessão não pode ofuscar a relação com o autor. Quando relaxei, isso passou a vir à tona de forma sem conflito. Você tem que ser fiel, respeitoso, e inventar o que quiser, mas fazer coisas que acrescentem ao trabalho do autor.


O que marcou sua volta?

Relaxamento. Você tem que estar relaxado e solto. O medo de perder o fio da meada paralisa. E tive um encontro com o Roberto Talma (1949-2015). Na época de “O astro”, disseram para ele que eu estava arrebentando e perguntaram o que ele tinha feito comigo. Ele respondeu: “Eu só dei carinho.” Devo muito ao Talma.

Como nasce um trabalho?

“Verdades secretas”, por exemplo, foi assim: Eu estava em “Amor à vida” cansado da linguagem da novela, aí fui para São Paulo gravar cenas de Maria Casadevall com o Caio Castro e quis fazer umas coisas loucas. Combinei com Walcyr que faria uns improvisos, umas invenções. O Carlos Henrique Schroder (diretor-geral da Globo) adorou as cenas e disse para o Walcyr que precisava de coisas mais urbanas. Walcyr então explicou que tinha uma novela das 23h e que me queria como diretor. Eu gosto mais do Walcyr escrevendo esse tipo de história do que no tema água com açúcar. Ele faz assuntos delicados parecerem conversa de bar sem chocar. Isso, acho que é virtude minha também, pegar umas coisas heavy e transformar em algo que se encaixe no veículo.

E como funciona sua parceria com os autores?

A novela não teve sinopse. Pela nossa relação, Walcyr não quer criar ligação com o elenco, ele prefere que o diretor tenha a confiança dos atores. A gente discute personagem por personagem. Ao longo dos capítulos, trocamos uma bola. Às vezes tem uma subjetividade do personagem que a gente tem que perguntar. Temos que ter respeito à história.

Como diretor, você além de dirigir, precisa administrar. Como lida com isso?

É a parte insuportável do trabalho porque é muita gente e a cada hora um dá defeito, mas você não pode dar. Uma novela longa, que lida com a emoção, leva as pessoas a lugares diferentes. O negócio é respirar fundo. Eu durmo bem 85% dos dias, tento não me tornar vítima do ofício. Tento não alimentar discussões porque é um saco. Se o protagonista dá defeito, a gente tem que conversar. Aí o ator tem problema de saúde, na vida pessoal, afinal quem tem a vida 100% equilibrada? Você tem que chamar num canto para focar. Também existem casos de rejeições de colegas que não conseguem dar beijo no outro, não gostam de fazer cena juntos porque não se gostam. Às vezes o cara não rende, perde o personagem no meio. Às vezes, o ator está tratando mal camareiro. E isso eu não tolero. Não respeito quem puxa saco de diretor e trata mal o camareiro. Meu esquema é o da camaradagem. Gosto de gente simples no entendimento da vida, sacou? Gente que curte aquela coisa heavy, que vê maldade em tudo, não existe.

Aquela imagem do diretor carrasco ficou para trás?

É um clichê antigo, não existe mais. Esses clichês todos mudaram, até o teste do sofá... hétero!

Hétero?

Sim, as meninas já chegam com 18, 19 anos e ferram com nossas vidas, podem acabar com você, entendeu? Os meninos, os bofes, chegam e te dão uma espinafrada. Já os gays chegam com os olhos arregalados, o pessoal vai em cima direto. Mas tudo mudou, não existe mais isso de diretor déspota. Ele tem que ser um diplomata, um alquimista, um gestor com alquimia, com certa magia para transformar atores e cenas naquilo que o espectador quer ver. Se você tem aquele brilho no olhar, não precisa de tirania, somente firmeza.

Um diretor trabalha com vários autores. Como deixa sua marca nessas parcerias?

Há diretores que imprimem a mesma marca e os camaleônicos, meu caso. Não acho que a vida está dentro de mim, não preciso colocar tudo o que é meu, quero me aproximar de universos distintos. Kubrick não parece que é o mesmo cara por trás de “Spartacus”, “Laranja mecânica”. Os assuntos são diferentes, e os tons de ator têm que mudar. Ainda quero mudar radicalmente no que diz respeito às lentes. Vou começar o próximo trabalho zerado.

Você disse que voltou à forma em “O astro”. Depois fez “Gabriela”, “Amor à vida" e “Dupla identidade”. Está satisfeito?

Sabe pessoas que não se arrependem de nada? Não acredito em gente assim. Vou dormir e me arrependo de dez coisas ao longo do dia. Não acredito em não mudar de opinião. Hoje, meu grau de satisfação é grande, mas a inquietação me move. Gostaria de fazer outras coisas, até a própria “Gabriela”, queria entender mais o país, achar uma brasilidade mais tosca. Porque quando vejo Glauber Rocha acho que tinha que ter entendido mais o Brasil e a Bahia nas coisas que fiz. Duvido que um cara que monte Nelson Rodrigues no teatro ache que fez a montagem definitiva.

Você se arrepende da caracterização da Juliana Paes?

Nem um pouquinho, sendo honesto. Me arrependo mais da escalação da Giulia Gam em “Dona Flor e seus 2 maridos”(minissérie de 1998). Gabriela é um símbolo feminino. E quando pessoas veem tal figura como símbolo, não adianta querer mudar. Gabriela tinha 26, Juliana tinha 32, mas Gabriela não é ninfeta, nunca foi. Juliana fez suuperbem, com leveza, é símbolo sexual queira ou não. Ela e o Humberto (Martins) faziam bem, se não arrebatou o público é outra questão.

Fazer novela no horário das 23h foi complicado?

Quando peguei o horário, concluí que precisava de algo a mais, um comportamento politicamente incorreto, sexualidade, violência e um pouco de porra-louquice. O horário está mudando, ajudado pelo Zé Luiz (José Luiz Villmarim) em “O rebu”. Ele deixou uma batata-quente na nossa mão. O horário está migrando para uma renovação de linguagem, o que é legal. “Verdades secretas” eu fiz sem cortes, ela inteira com duas câmeras no estúdio. É uma novela mais artesanal e sofisticada que deu certo.

O beijo gay de “Babilônia” foi muito criticado. Para você, o que faz o espectador aceitar “Verdades secretas”, novela com temática forte?

Nossa função é seduzir. Tento seduzir com muitas coisas e não consigo. O público conservador sempre esteve aí. Qualquer trabalho tem que dialogar com os dois tipos de espectador. O Brasil não é avançado. Depois do beijo de “Amor à vida”, o erro foi achar que tínhamos chegado a outro lugar. A gente faz uma novela da pá virada, só que os conservadores veem como denúncia e espaço para a própria fantasia. Nenhum ser humano fica sem fantasia, a ficção está aí para isso. Ao mesmo tempo, tem a coisa liberal da novela que agrada.

O que “Amor à vida” acrescentou à sua carreira?

Tenho o maior orgulho de ter dirigido uma cena como essa e de vê-la marcada na teledramaturgia como um divisor de águas. Não querendo ser piegas, mas tem uma hora que o trabalho migra daquela função vazia de entreter para fazer uma espécie de bem, sacou? Eu, o Walcyr e a empresa soubemos três meses antes, os atores, com um mês. Chamei o Mateus Solano e o Thiago Fragoso e pedi que se jogassem. Eu mesmo me livrei de muito preconceito. É tudo muito igual, paixão, sentimento, desejo. Foi uma grande sacada do Walcyr, porque lá no capítulo 30/40, percebemos que o casal principal não tinha funcionado. Aí ele antecipou uma cena bem homofóbica do César (Antonio Fagundes) com o filho do capítulo 120 para o 55. Gravando, percebi que nossa nova trama principal estava ali. O beijo começou com Fagundes e Mateus e acabou com eles.


Vocês gravaram três versões do beijo, certo?

Não. Quatro. Só que um era uma bitoca rápida que nem mostrei à direção. No dia do último capítulo, eu, Wolf Maya (diretor de núcleo) e Walcyr mostramos as opções. Começamos do heavy ao mais leve. Eles pularam da cadeira e disseram que não estava aprovado. Voltando para casa, me ligaram. Voltei para a edição.

Como foi sua experiência em “Dupla identidade”?

Se você liga a TV nos Estados Unidos, percebe que não há diferença entre a imagem do canal aberto e a do canal fechado. A Globo descobriu isso tardiamente, mas a tempo. E me encomendou um seriado que não poderia dever nada aos lá de fora. Fiz uma lista de dez regras básicas que diferenciam uma novela de uma série. Exemplo? Se na novela, um diretor de hospital pode comer a secretária, na série o que importa é que ele entenda de medicina. Novela tem narrativa oral, é didática, série não. Ensaiei por 50 dias. Trabalhamos intensamente para que Bruno (Gagliasso) chegasse no lugar da psicopatia que era estranho. É macabro, bem macabro. Queria Edu com olhar que atravessasse, como se só visse carne nas mulheres. E ele foi, né? Eu não quero desistir da segunda temporada. A grande virtude é mudar o psicopata.

Você já fez novela ruim?

Ahhh, já fiz novela ruim, sim. Quando percebe que está num fracasso no capítulo 30 e ainda tem 190 pela frente é um desespero, vira sistema. Aí você sobrevive de cinismo.



http://oglobo.globo.com/cultura/revista-da-tv/diretor-de-verdades-secretas-fala-da-tematica-forte-da-novela-das-23h-nenhum-ser-humano-fica-sem-fantasias-17405284?utm_source=Twitter&utm_medium=Social&utm_campaign=compartilhar

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Jefferson Balbino entrevista João Emanuel Carneiro para o No Mundo dos Famosos

Hoje eu entrevisto aqui “No Mundo dos Famosos” o autor da nova novela das nove, “A Regra do Jogo”, que estreia hoje na tela da Globo. Meu entrevistado é um dos maiores gênios da teledramaturgia brasileira. Ele é o principal responsável por toda essa inovação que vem ocorrendo no gênero e a cada novela que escreve comprova a teoria que ele é a Janete Clair de calças dessa geração de novelistas. A “Entrevista Especial” de hoje é com o mega talentoso novelista JOÃO EMANUEL CARNEIRO.

“Acho que o fato das minhas novelas serem muito exportadas lá fora e terem feito muito sucesso aqui [no Brasil] me instiga a fazer um trabalho cada vez melhor. E, é isso que eu tenho procurado fazer!”

(João Emanuel Carneiro)

Jéfferson Balbino: João, você começou sua carreira como novelista colaborando com a nossa querida Maria Adelaide Amaral nas minisséries “A Muralha” e “Os Maias”, ambas de época. Você cogita a possibilidade de escrever uma novela de época?

João Emanuel Carneiro: Eu acho legal novela de época, mas nunca me interessei por escrever uma...

Jéfferson Balbino: Hoje estreia sua nova novela, “A Regra do Jogo”, como surgiu a idéia de escrever a nova novela das nove da TV Globo?

João Emanuel Carneiro: A história gira em torno do personagem Romero Rômulo e a idéia de fazer esse homem veio da minha mãe que faleceu há pouco tempo e que sempre me pedia para escrever a história de um santo, já que ela era muito católica.

Jéfferson Balbino: Então podemos definir o Romero, o protagonista de “A Regra do Jogo”, como um santo?

João Emanuel Carneiro: Ele é um santo torto (risos)...

Jéfferson Balbino: Todas as suas vilãs tornaram-se criaturas inesquecíveis para o Brasil inteiro, foi assim com a Bárbara de “Da Cor do Pecado”, com a Leona de “Cobras & Lagartos”, com a Flora de “A Favorita” e com a Carminha de “Avenida Brasil”. A vilã Atena, de “A Regra do Jogo”, irá por todas no ‘chinelo’ ou seguirá o mesmo nível de vilania (risos)?

João Emanuel Carneiro: Não conto (risos), vão ter que assistir e descobrir!

Jéfferson Balbino: A sua novela, assim como foi à antecessora no horário, no caso “Babilônia” terá um núcleo de personagens ambientados numa favela. Você acredita que toda novela das nove tem como missão retratar algum aspecto sociocultural?

João Emanuel Carneiro: Costumo dizer sempre que o meu compromisso é com a dramaturgia e nunca com as questões sociais.

Jéfferson Balbino: E você se inspirou em alguma comunidade carioca para criar o Morro da Macaca?

João Emanuel Carneiro: O Morro da Macaca é um morro inventado, fictício. Era um morro menor, mas confesso que foi um pouco inspirado no Vidigal.

Jéfferson Balbino: E como está sendo ter a nossa querida Amora Mautner como diretora de núcleo de sua novela?

João Emanuel Carneiro: Está sendo ótimo, pois temos uma grande sintonia.

Jéfferson Balbino: O fato de suas novelas serem as mais exportadas da história da TV Globo implica uma responsabilidade maior que força “A Regra do Jogo” superar o fenômeno que foi “Avenida Brasil”?

João Emanuel Carneiro: Acho que o fato das minhas novelas serem muito exportadas lá fora e terem feito muito sucesso aqui [no Brasil] me instiga a fazer um trabalho cada vez melhor. E, é isso que eu tenho procurado fazer!

Jéfferson Balbino: E quais surpresas o público pode esperar já nesse primeiro capítulo de “A Regra do Jogo”?

João Emanuel Carneiro: Não vou contar, vocês terão que assistir o primeiro capítulo para conferir (risos).

Jéfferson Balbino: Como você define a novela “A Regra do Jogo”?

João Emanuel Carneiro: Como uma história que mostra o limite do certo e o errado, do bem e do mal. Do até que ponto você pode estar certo ou estar errado? E isso permeando os vários personagens.

Jéfferson Balbino: Querido, obrigado por conceder essa entrevista ao “No Mundo dos Famosos”. E todo o sucesso do mundo para “A Regra do Jogo”, abraço!

João Emanuel Carneiro: Obrigado...

Link http://www.nomundodosfamosos.com.br/entrevista_especial_1.html

João Emanuel Carneiro é entrevistado por Lígia Mesquita para a Folha De São Paulo


João Emanuel Carneiro, 45, "acha" que já conseguiu entrar para o seleto viveiro das "seis ararinhas azuis", como o colega Aguinaldo Silva define os novelistas, "espécies raras e em extinção", donos do horário nobre na Globo.

"É um lugar nada garantido. Se você se fiar nisso, tá ferrado", afirma ele à Folha, em um restaurante na orla de Ipanema, no Rio de Janeiro.

Três anos após o fenômeno "Avenida Brasil", que além de ótima audiência gerou o maior burburinho da última década na teledramaturgia e foi vendida para 134 países -um recorde-, Carneiro retorna ao ar nesta segunda (31) com "A Regra do Jogo".

A trama das nove, com direção de Amora Mautner, tem a missão de recolocar a audiência na casa dos 30 pontos no Ibope -na Grande São Paulo, cada ponto equivale a 67 mil casas. Com índices abaixo dessa média, a antecessora "Babilônia" foi encurtada em dois meses.

A novela, um thriller, parte da premissa filosófica do que seria o certo e o errado. O protagonista, interpretado por Alexandre Nero, é um bandido que se vende como bom moço (tem uma ONG de fachada) e se apaixona pela ideia de se tornar santo.

O autor vê na trama um paralelo com o momento político atual do Brasil. "Me fascina o caráter das pessoas. Até que ponto elas podem ir, se redimir", diz. "Brecht falava que quem tem fome não pode ter moral. Nós brasileiros somos coluna do meio muitas vezes, perdoamos muito."

Também se mostra disposto a "olhar em volta" ao retratar o país. Para ele, a classe C "já foi plenamente contemplada" pela TV brasileira, ao contrário das classes A e B.

"Quando fiz 'Avenida Brasil', tinha a reflexão de que as tramas tratavam a elite sempre igual, o 'rico de novela. Aquela 'mansão da milionária' não mais retrata o Brasil."

Leia as respostas de Carneiro para a Folha.

*

Novela masculina
É minha primeira novela centrada num homem. O Romero Rômulo [Nero] é um santo torto. É alguém que quer tentar se emendar, se acertar. A novela é a trajetória dele, pendendo entre o bem e o mal.
"Avenida Brasil"

Temo comparações, mas não é algo fundamentado. Elas são totalmente diferentes. O medo de ser rejeitado e ser chato tem que acompanhar a gente o tempo todo. Se você perde esse medo, tá ferrado.

A grande coisa da novela é inventar um brinquedo novo pra mim. O que eu já fiz não tem graça. Não existe métier. Cada vez você é posto à prova.

Rico de novela
A classe C já foi plenamente contemplada há anos. A gente vive num país que é classe C. Ponto. Já é. Se a TV errou em algo, foi em não contemplar mais as classes A e B. Este público quer ver coisas passadas no Brasil, e em português.

Quando fiz "Avenida Brasil", uma reflexão que tinha é que as tramas tratavam a elite sempre igual, o "rico de novela". Aquela "mansão da milionária" não retrata mais o Brasil. Tem que olhar em volta.

Sem improviso
Iniciamos o processo da novela há dois anos. Não creio na mitificação do improviso, em que antigamente a TV se baseava, com testes de elenco feitos com a novela no ar. "Da Cor do Pecado" [2004] estreou com 80 episódios prontos.

Público inteligente
O público é mais inteligente do que a gente imagina. Menosprezá-lo é o maior erro. É como uma criança: se você leva-la ao Museu do Prado, ela vai adorar aquelas pinturas. Se só leva ao parque de diversão, só vai conhecer aquilo.

Inovação
As minhas novelas têm a volta para uma estrutura de narrativa mais antiga, mas com personagens contraditórios. Inovar não tem que ser uma preocupação. A novela é quase um serviço público, pertence a quem vê. Você passa a fazer sucesso quando começa a se conectar com as pessoas, e não fazer o que elas esperam.

Audiência
O Brasil ainda vê muita TV. Assim como houve a saída para a internet, pode haver uma volta para a TV aberta.

Acompanho a audiência, mas não fico refém. Minhas histórias principais nunca mudaram, mas já mexi em paralelas. Em "A Favorita" [2008], quando a Lilia Cabral apanhava, aumentava a audiência. Ela apanhou muito [risos].

Se me pedissem para alterar a história [por baixa audiência], falaria para mandar alguém escrever. Bateria o pé.

Autocensura
Tem um bom senso quando pensa que entra na casa de 40 milhões de pessoas. Não boto palavrão, personagem fumando cigarrinho, tomando uisquinho de dia. Vão reclamar. Poderia subverter isso, mas aí tem classificação indicativa.

Cedo em algumas coisas para ter outras maiores, como abordar temas mais complexos.

Exportação de folhetim
"Avenida Brasil" tem "plot" original. Uma coisa que a ficção brasile
Exportação de folhetim
"Avenida Brasil" tem "plot" original. Uma coisa que a ficção brasileira não faz bem é drama. A América Latina é o lugar do drama, é a lágrima.
Minhas novelas têm trama central forte e pouco personagem. Quando tem uma novela com cem personagens, sem uma história forte, fora do Brasil você não tem nem leitura.

Comunidade fictícia
Disseram que o subúrbio [de "Avenida Brasil"] não existia em lugar nenhum, só na minha cabeça. E é verdade, é ficção. Para o Morro da Macaca, de "A Regra do Jogo", não ambiciono nada muito realista nem documental. É uma favela que deu certo, com turistas, classe média indo morar lá. É a alegoria de como vejo essa favela, a classe média, o asfalto, os ricos do Rio.

Pen drive da Nina
Sou paleolítico da internet. Foi um escorregão, tive muita vergonha [em "Av. Brasil", Nina perde as fotos impressas que usava para chantagear Carminha, sem ter cópia num pen drive]. Fiz um curso e na novela vai ter hacker, nuvem.

Merchan social e polêmicas
Se for da trama, pode ser que eu aborde algum tema polêmico. De fora para dentro ter que discutir determinados temas me parece programático, engessa a história.

Mas como quase todas as novelas já se dedicam tanto a fazer esse tipo de polêmica, as minhas podem se dedicar a falar de temas novos para as pessoas, dinâmicas, conflitos novos. Eu como espectador não me seduzo tanto por polêmicas programáticas.

Como vê o Rio
Sou carioca. O Rio é um balneário com muita herança, já foi um império, tem um passado glorioso. E onde a ideia de trabalho é muitas vezes um insulto, as pessoas vão se virando. A relação pessoal é tão importante, estar na festa é tão importante.

E tem isso tanto na favela quanto no asfalto. O núcleo do personagem do Marcos Caruso vai mostrar um pouco isso, ele é um bon vivant decadente.

Gênero policial
Eu amo romance policial, coleciono todas revistas de literatura policial. Aí escolhi fazer um thriller desta vez. Mas em sempre humor também, drama.

A novela é uma composição variada, é como uma refeição para a família. Tem que ter arroz, feijão, carne, uma farofa, uma salada. Não posso fazer um capítulo inteiro de thriller.

Processo criativo
Eu tenho os movimentos dos personagens para cada uma das 28 semanas. Posso ter ideias melhores, mudar o que já tenho. Mas eu já tenho.

Os personagens falam na minha cabeça, só consigo escrever as cenas a partir dos diálogos, escrevo todos. Os colaboradores [Alessandro Marson, Antonio Prata, Claudio Simões, Fabio Mendes, Paula Amaral e Thereza Falcão ] podem arredondar, colocar uma fala, dar um sabor.

É um trabalho de chinês aposentado, uma maneira antiga de se fazer novela. Não sei delegar muito.

LINK http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/08/1675453-tv-erra-em-nao-contemplar-mais-a-elite-diz-joao-emanuel-carneiro.shtml

domingo, 30 de agosto de 2015

Revista Época entrevista João Emanuel Carneiro

João Emanuel Carneiro, de 45 anos, recebeu ÉPOCA numa sexta-feira ensolarada que levou turistas a tomar espumantes na pérgula do Copacabana Palace. O autor da próxima novela da TV Globo, A regra do jogo, que estreará nesta segunda-feira, dia 31, morou numa das suítes do hotel de Copacabana quando um de seus imóveis (não revela quantos) estava sob reforma. Ele estava, portanto, quase em casa, quando deu esta entrevista. Consagrado como o autor de dois dos maiores sucessos da TV Globo, Avenida Brasil (2012), vendida para 106 países, e Da cor do pecado (2004), 100 países, ele tem a missão de superar os baixos índices de audiência de Babilônia, a atração do momento na faixa das 9 horas.  Mesmo contando com seis colaboradores na construção de sua narrativa, Carneiro trabalha dez horas por dia. Em A regra do jogo, quase todos os personagens transitam no limiar ético entre o bem e o mal – e o protagonista é um anti-herói de esquerda. Carneiro diz que se inspirou, em parte, na atual crise vivida pelo país.

O MOMENTO DO BRASIL 
João Emanuel Carneiro, no Copacabana Palace, onde já morou. “Criei um anti-herói de esquerda com uma ética duvidosa” (Foto: Andre Arruda/Epoca)
ÉPOCA – Como o senhor está vendo o Brasil hoje? A crise do país está inserida em sua novela?
João Emanuel Carneiro – O protagonista Romero Rômulo (personagem do ator Alexandre Nero) é uma figura bastante complexa e contraditória. É um ativista social ongueiro que recupera marginalizados. Só que, apesar disso, pairam dúvidas sobre seu caráter. A novela toda trata dessa sombra, dessa dúvida sobre o caráter das pessoas. A começar pelo do protagonista. Até que ponto esse homem quer o bem dos pobres? Está se aproveitando deles? É ou não um bandido? Tem tudo a ver com este momento brasileiro. Passei por uma banca em Ipanema e as capas de revistas eram todas sobre ética, com nossos heróis de esquerda presos. Romero é de esquerda com uma ética duvidosa.

ÉPOCA – O senhor discute ética e moral com muita frequência em suas novelas. É proposital?
Carneiro – Em A regra do jogo, a discussão é no sentido mais abrangente e político. Por mais que não estejamos falando de pessoas reais, já que a novela fala de um microcosmo ficcional, ela reflete a realidade. O escritor tem de ter uma antena mesmo, algum tipo de percepção.

ÉPOCA – O senhor escreveu depois das manifestações de 2013? Elas o influenciaram de alguma forma?
Carneiro – A questão ética da esquerda que tomou o poder e é ou não ladra é uma questão que vem  nos acompanhando há muitos anos, não é? Não diria que me motivou. Não é encomenda dessa situação. Novela é um bordado, parte de um elemento. Começou assim com o Romero. Tenho esse cara, que ninguém sabe se é bom ou se é mau. Aí tem uma mulher que é boa, Tóia (personagem de Vanessa Giácomo). E tem uma que é má, Atena (Giovanna Antonelli). Tóia e Atena são os dois lados de Romero Rômulo, como se fossem um anjinho e um diabinho. As duas são úteis porque ele se apaixona pela ideia de que há quem o idealize e o idolatre como herói do povo.

ÉPOCA – O senhor estreou como autor com a novela Da cor do pecado e a difícil missão de levantar a audiência do horário das 7 horas. Terminou com excelentes 43 pontos de média geral. Agora precisa levantar a audiência das 9 horas, que caiu muito com Babilônia. Como o senhor lida com essa pressão?
Carneiro – Olha, todas as novelas que fiz foram sucesso de audiência. Então, eu não tive de lidar com um problema de ter de mudar a novela porque foi um fracasso. Até hoje. Ao contrário, peguei audiência baixa e levantei. Rezo para Deus para continuar assim. Novela tem uma coisa. A gente faz a melhor história possível, o melhor que você pode imaginar. Mas existe o imponderável. Só o Altíssimo pode nos ajudar (risos).

ÉPOCA – Mas não há pressão neste momento? Afinal, são muitas pessoas envolvidas na produção de uma novela.
Carneiro – Toda a imprensa diz que a Globo impõe questões para mim. Mas não tem nada disso. Nem artístico, nem tema encomendado, nada. Nunca ouvi isso. O segredo do sucesso da TV Globo é esse. As pessoas têm liberdade para apresentar coisas. Há uma autoralidade que não há nas novelas latino-americanas. A pressão existe quando a novela vai ao ar. Basicamente, tem de dar certo. É isso, não é? É muito cruel, duro, porque é uma expectativa enorme em cima de uma pessoa.

ÉPOCA – O senhor trabalha com colaboradores. Como se dividem?
Carneiro – Eu concentro muito o trabalho. A novela não é uma obra coletiva, não deve ser feita em grupo. É a criação individual de uma pessoa, de um autor. E colaborador é... colaborador. Trabalho dez horas por dia. A tendência das novelas hoje em dia é serem feitas por um grupo de pessoas porque são grandes demais. Um capítulo tem 33 laudas. Supõe-se que eu faça um capítulo por dia, com inspiração. É uma coisa maluca. Faço mais capítulos antes de estrear para não fazer seis por semana. Eu estoco. Depois faço dois, três capítulos semanais com a novela no ar.

ÉPOCA – Suas novelas têm poucos personagens. Boa parte dos autores precisa escrever para mais de 100 atores. O senhor barganhou essa situação?
Carneiro – Não, eu faço com quantos quiser. É que eu só consigo falar com 30 personagens por semana. Não consigo falar com 100. Essa questão de 100 personagens tem a ver com esse processo de escrita. Como há muitas pessoas escrevendo diversos núcleos, vai virando essa coisa gigante.

ÉPOCA –  O senhor escolhe os atores de suas novelas? Ou a indicação vem de cima?
Carneiro – Eu e a diretora, Amora Mautner, escolhemos o elenco inteiro, e também a trilha sonora. O autor de uma novela tem uma função criativa, mas também um pouco administrativa. É uma função de produtor.

ÉPOCA – Como os seleciona?
Carneiro – Como em minhas novelas há poucos personagens, trabalho com perfis específicos. Por isso, eu vou atrás, abordo, vou procurar quem me interessa. Comigo, não há um balcão. Não escrevo para atores, entende? Mas, naturalmente, os talentos aparecem.

"Novela é uma possessão. Há horas
em que os personagens falam coisas em seu ouvido” 

ÉPOCA – O público que assiste a novelas, nas TVs abertas, é mais conservador? Como o senhor mantém a liberdade criativa tendo de atender uma audiência reticente a temas mais heterodoxos?
Carneiro – Acho que o público não é conservador. Conquistá-lo com algo novo depende muito da forma como você vai tratar determinadas questões na dramaturgia, tendo o cuidado de perceber como o telespectador vai assimilar. O público de televisão, conservador ou não, é como se fosse uma criança. Como criança, ele está sempre propenso a aceitar o que vem para ele. A TV entra na casa das pessoas de graça, como um brinquedo entra no quarto de uma criança. Você consegue vender qualquer coisa para esse público se souber vender.

ÉPOCA – É preciso então educar o público?
Carneiro – Uma criança pode fazer birra. É uma negociação. Tem de se impor de uma maneira amistosa. Tanto que fiz novelas que foram consideradas ousadas, como A favorita, em que não se sabia quem era a heroína até metade da novela. Como a Flora (Patricia Pillar), pobre, poderia ser a vilã? Se toparam aquilo...

ÉPOCA – Todas as histórias já foram contadas?
Carneiro – Concordo. Com a ressalva de que em A regra do jogo vou contar a trajetória de um anti-herói de esquerda. Acho que essa história foi pouco contada. Não vi por aí, não.

ÉPOCA –  O senhor é simpático à esquerda?
Carneiro – Não sou uma pessoa política, não. A crise econômica que estamos vivendo é uma coisa dramática. Claro que chega para mim, mas não sou politicamente ativista para nenhum lado. Sinceramente. Estou fazendo uma autocrítica aqui. Não sou uma pessoa que se manifesta. Nem Facebook eu tenho. Não gosto, acho perda de tempo.

ÉPOCA – Quando não faz novela, o que faz?
Carneiro – Ah, prefiro ir à praia. Ou ler.

ÉPOCA – Por que contar histórias?
Carneiro – Contar histórias é uma imposição e uma necessidade. Novela é uma possessão. Há horas em que os personagens falam coisas em seu ouvido. É uma convivência com pessoas invisíveis. Quando acaba, vão todos embora. É uma coisa esquisitíssima. A casa fica vazia.