João Emanuel Carneiro, de 45 anos, recebeu ÉPOCA numa sexta-feira ensolarada que levou turistas a tomar espumantes na pérgula do Copacabana Palace. O autor da próxima novela da TV Globo, A regra do jogo, que estreará nesta segunda-feira, dia 31, morou numa das suítes do hotel de Copacabana quando um de seus imóveis (não revela quantos) estava sob reforma. Ele estava, portanto, quase em casa, quando deu esta entrevista. Consagrado como o autor de dois dos maiores sucessos da TV Globo, Avenida Brasil (2012), vendida para 106 países, e Da cor do pecado (2004), 100 países, ele tem a missão de superar os baixos índices de audiência de Babilônia, a atração do momento na faixa das 9 horas. Mesmo contando com seis colaboradores na construção de sua narrativa, Carneiro trabalha dez horas por dia. Em A regra do jogo, quase todos os personagens transitam no limiar ético entre o bem e o mal – e o protagonista é um anti-herói de esquerda. Carneiro diz que se inspirou, em parte, na atual crise vivida pelo país.
O MOMENTO DO BRASIL
João Emanuel Carneiro, no Copacabana Palace, onde já morou. “Criei um anti-herói de esquerda com uma ética duvidosa” (Foto: Andre Arruda/Epoca)
ÉPOCA – Como o senhor está vendo o Brasil hoje? A crise do país está inserida em sua novela?
João Emanuel Carneiro – O protagonista Romero Rômulo (personagem do ator Alexandre Nero) é uma figura bastante complexa e contraditória. É um ativista social ongueiro que recupera marginalizados. Só que, apesar disso, pairam dúvidas sobre seu caráter. A novela toda trata dessa sombra, dessa dúvida sobre o caráter das pessoas. A começar pelo do protagonista. Até que ponto esse homem quer o bem dos pobres? Está se aproveitando deles? É ou não um bandido? Tem tudo a ver com este momento brasileiro. Passei por uma banca em Ipanema e as capas de revistas eram todas sobre ética, com nossos heróis de esquerda presos. Romero é de esquerda com uma ética duvidosa.
ÉPOCA – O senhor discute ética e moral com muita frequência em suas novelas. É proposital?
Carneiro – Em A regra do jogo, a discussão é no sentido mais abrangente e político. Por mais que não estejamos falando de pessoas reais, já que a novela fala de um microcosmo ficcional, ela reflete a realidade. O escritor tem de ter uma antena mesmo, algum tipo de percepção.
ÉPOCA – O senhor escreveu depois das manifestações de 2013? Elas o influenciaram de alguma forma?
Carneiro – A questão ética da esquerda que tomou o poder e é ou não ladra é uma questão que vem nos acompanhando há muitos anos, não é? Não diria que me motivou. Não é encomenda dessa situação. Novela é um bordado, parte de um elemento. Começou assim com o Romero. Tenho esse cara, que ninguém sabe se é bom ou se é mau. Aí tem uma mulher que é boa, Tóia (personagem de Vanessa Giácomo). E tem uma que é má, Atena (Giovanna Antonelli). Tóia e Atena são os dois lados de Romero Rômulo, como se fossem um anjinho e um diabinho. As duas são úteis porque ele se apaixona pela ideia de que há quem o idealize e o idolatre como herói do povo.
ÉPOCA – O senhor estreou como autor com a novela Da cor do pecado e a difícil missão de levantar a audiência do horário das 7 horas. Terminou com excelentes 43 pontos de média geral. Agora precisa levantar a audiência das 9 horas, que caiu muito com Babilônia. Como o senhor lida com essa pressão?
Carneiro – Olha, todas as novelas que fiz foram sucesso de audiência. Então, eu não tive de lidar com um problema de ter de mudar a novela porque foi um fracasso. Até hoje. Ao contrário, peguei audiência baixa e levantei. Rezo para Deus para continuar assim. Novela tem uma coisa. A gente faz a melhor história possível, o melhor que você pode imaginar. Mas existe o imponderável. Só o Altíssimo pode nos ajudar (risos).
ÉPOCA – Mas não há pressão neste momento? Afinal, são muitas pessoas envolvidas na produção de uma novela.
Carneiro – Toda a imprensa diz que a Globo impõe questões para mim. Mas não tem nada disso. Nem artístico, nem tema encomendado, nada. Nunca ouvi isso. O segredo do sucesso da TV Globo é esse. As pessoas têm liberdade para apresentar coisas. Há uma autoralidade que não há nas novelas latino-americanas. A pressão existe quando a novela vai ao ar. Basicamente, tem de dar certo. É isso, não é? É muito cruel, duro, porque é uma expectativa enorme em cima de uma pessoa.
ÉPOCA – O senhor trabalha com colaboradores. Como se dividem?
Carneiro – Eu concentro muito o trabalho. A novela não é uma obra coletiva, não deve ser feita em grupo. É a criação individual de uma pessoa, de um autor. E colaborador é... colaborador. Trabalho dez horas por dia. A tendência das novelas hoje em dia é serem feitas por um grupo de pessoas porque são grandes demais. Um capítulo tem 33 laudas. Supõe-se que eu faça um capítulo por dia, com inspiração. É uma coisa maluca. Faço mais capítulos antes de estrear para não fazer seis por semana. Eu estoco. Depois faço dois, três capítulos semanais com a novela no ar.
ÉPOCA – Suas novelas têm poucos personagens. Boa parte dos autores precisa escrever para mais de 100 atores. O senhor barganhou essa situação?
Carneiro – Não, eu faço com quantos quiser. É que eu só consigo falar com 30 personagens por semana. Não consigo falar com 100. Essa questão de 100 personagens tem a ver com esse processo de escrita. Como há muitas pessoas escrevendo diversos núcleos, vai virando essa coisa gigante.
ÉPOCA – O senhor escolhe os atores de suas novelas? Ou a indicação vem de cima?
Carneiro – Eu e a diretora, Amora Mautner, escolhemos o elenco inteiro, e também a trilha sonora. O autor de uma novela tem uma função criativa, mas também um pouco administrativa. É uma função de produtor.
ÉPOCA – Como os seleciona?
Carneiro – Como em minhas novelas há poucos personagens, trabalho com perfis específicos. Por isso, eu vou atrás, abordo, vou procurar quem me interessa. Comigo, não há um balcão. Não escrevo para atores, entende? Mas, naturalmente, os talentos aparecem.
"Novela é uma possessão. Há horas
em que os personagens falam coisas em seu ouvido”
ÉPOCA – O público que assiste a novelas, nas TVs abertas, é mais conservador? Como o senhor mantém a liberdade criativa tendo de atender uma audiência reticente a temas mais heterodoxos?
Carneiro – Acho que o público não é conservador. Conquistá-lo com algo novo depende muito da forma como você vai tratar determinadas questões na dramaturgia, tendo o cuidado de perceber como o telespectador vai assimilar. O público de televisão, conservador ou não, é como se fosse uma criança. Como criança, ele está sempre propenso a aceitar o que vem para ele. A TV entra na casa das pessoas de graça, como um brinquedo entra no quarto de uma criança. Você consegue vender qualquer coisa para esse público se souber vender.
ÉPOCA – É preciso então educar o público?
Carneiro – Uma criança pode fazer birra. É uma negociação. Tem de se impor de uma maneira amistosa. Tanto que fiz novelas que foram consideradas ousadas, como A favorita, em que não se sabia quem era a heroína até metade da novela. Como a Flora (Patricia Pillar), pobre, poderia ser a vilã? Se toparam aquilo...
ÉPOCA – Todas as histórias já foram contadas?
Carneiro – Concordo. Com a ressalva de que em A regra do jogo vou contar a trajetória de um anti-herói de esquerda. Acho que essa história foi pouco contada. Não vi por aí, não.
ÉPOCA – O senhor é simpático à esquerda?
Carneiro – Não sou uma pessoa política, não. A crise econômica que estamos vivendo é uma coisa dramática. Claro que chega para mim, mas não sou politicamente ativista para nenhum lado. Sinceramente. Estou fazendo uma autocrítica aqui. Não sou uma pessoa que se manifesta. Nem Facebook eu tenho. Não gosto, acho perda de tempo.
ÉPOCA – Quando não faz novela, o que faz?
Carneiro – Ah, prefiro ir à praia. Ou ler.
ÉPOCA – Por que contar histórias?
Carneiro – Contar histórias é uma imposição e uma necessidade. Novela é uma possessão. Há horas em que os personagens falam coisas em seu ouvido. É uma convivência com pessoas invisíveis. Quando acaba, vão todos embora. É uma coisa esquisitíssima. A casa fica vazia.
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