Manoel Carlos é mestre em escrever sobre o comportamento humano. Nenhum autor consegue captar tão bem os anseios da alma feminina, descrever o cotidiano da família brasileira e falar de forma tão direta e com tanta sensibilidade sobre os dramas do amor e da vida.
Autor de sucessos como A Sucessora, Baila Comigo, História de Amor, Por Amor, Laços de Família, Presença de Anita, Mulheres Apaixonadas, Páginas da Vida e Maysa – Quando Fala o Coração, o escritor concedeu uma ótima entrevista ao nosso blog. Sem meias palavras, responde de forma bem direta e corajosa, sem se deixar intimidar, até mesmo as perguntas mais capciosas feitas pela nossa equipe.
Maneco abre as páginas de uma carreira de muito sucesso e algumas polêmicas para o Agora é Que São Eles, brindando nosso público com sua sensibilidade e inteligência, nos deixando orgulhosos de ter este grande autor na galeria de nossos entrevistados.
ENTREVISTA EXCLUSIVA
Daniel Pepe pergunta
Nívea Maria em "Maria Maria".
1- Apesar de ter escrito para a televisão desde os anos 50, entre outras funções realizadas, sua primeira novela foi ao ar somente em 1978 (“Maria Maria”). O fato decorreu unicamente por Borjalo, então diretor da Globo, ter lhe transmitido a ideia da adaptação do romance, ou você já tinha a ideia de ingressar para o time de novelistas? Não havia desejo de sua parte nos anos 60 e início dos 70 de escrever novelas?
Em 1952, na TV Paulista (SP-hoje Globo) eu escrevi novelas de 15 minutos, que iam ao ar em dias alternados, no meio da tarde. Na Tupi (SP), pouco tempo depois, voltei a escrever novelas curtas, que duravam um mês, e que eram inseridas na Revista Feminina, programa diário produzido por Abelardo Figueiredo. Não via interesse em escrever novelas, sempre preferi o teleteatro. Para você ter uma idéia do meu volume de trabalho na época, a partir de 1955, só para o Grande Teatro Tupi (RJ), do Sérgio Britto, eu escrevi mais de 100 textos, entre originais e adaptações dos grandes romances da literatura universal. Nos anos 60, com Álvaro Moya, na Excelsior, e depois na Record, com a Equipe A, me voltei para os musicais e programas de variedades, como Brasil 60 (61-62 e 63), Fino da Bossa, Esta Noite se Improvisa, Família Trapo e Hebe. Mas indo para a Globo, onde fui diretor geral do Fantástico, era previsível que um dia me convidassem para escrever novelas. Era uma decorrência natural, pois todos sabiam da minha trajetória. Foi o que aconteceu. O poeta Paulo Mendes Campos deu ao Borjalo o livro “Maria Dusá”, de Lindolpho Rocha, recomendando-o como uma boa história para às 18 horas. O Borjalo me pediu para ler e dizer se gostaria de escrever a novela. Eu li, gostei, fiz “Maria Maria” (1978).
Guilherme Staush pergunta
2- Você teve alguns problemas com o Ministério da Justiça ou com a própria Globo por causa de algumas personagens ou cenas de suas novelas: o strip-tease de Ana Paula Arósio vestida de noiva e o depoimento sobre a música de Roberto Carlos em “Páginas da Vida” receberam críticas dos telespectadores mais conservadores; Os atores menores de 18 anos foram retirados durante algum tempo de “Laços de Família”, e mais recentemente, o MP achou que a menina Klara Castanho estava cometendo muitas maldades em “Viver a Vida”. Qual sua percepção sobre todas essas interferências no seu trabalho? Analisando hoje, acha que elas tiveram fundamento ou representaram um exagero, um retrocesso tanto por parte dos telespectadores, dos órgãos públicos, quanto da própria emissora?
Não vi fundamento nenhum nessas ocorrências. Foram atos de censura, mesmo disfarçados, e esses atos carecem de razão, já que são arbitrários. Eu sempre fui muito patrulhado como autor. Em “Laços de Família”, o polêmico dr. Siro Darlan, considerou pesadas as cenas que envolviam crianças e adolescentes. Protestamos, mas tivemos que obedecer. Em “Viver a Vida” o que mais me causou espanto foi o Ministério Público manifestar-se contra o uso da atriz Klara Castanho para fazer uma vilãzinha de teatro infantil, apenas porque leu nos jornais que ela teria esse papel. Não esperou nem que se confirmasse essa intenção. Muito estranho. A censura ao strip-tease da Arósio soou ridícula. Era na lua-de-mel dela com o marido, casados na igreja e no civil. E era muito bonito e delicado. No caso da empregada doméstica que fez o depoimento sobre a música do Roberto Carlos, também não vi nenhum problema. Era uma mulher simples, do povo, usando um vocabulário raso, à altura do seu conhecimento, falando aquilo de maneira sincera. E o que ela disse não era um palavrão, mas uma expressão popular, não inteligível para os jovens, menos ainda para as crianças. Essa ocorrência só demonstrou preconceito.
Duh Secco pergunta:
3- Você apostou em Helenas de meia-idade em tramas como “Por Amor” e “Laços de Família”. Já em “Viver a Vida”, investiu em uma Helena mais jovem, com uma vida estabilizada e conflitos menores que os das outras Helenas citadas. A personagem vivida por Taís Araújo, entretanto, acabou sucumbindo à abordagem da tetraplegia, por meio da Luciana, de Alinne Moraes. A novela acabou sofrendo também críticas a respeito da morosidade no desenvolvimento do enredo. Acredita que tenha cometido algum engano em “Viver a Vida”, principalmente com aquela que seria protagonista? Faria algo de diferente para contornar esses problemas?
O personagem foi criado para a Lilian Lemmertz e moldado por ela. Regina Duarte, Vera Fischer e Christiane Torloni seguiram a mesma linha, enquanto Maitê Proença, por ser mais nova, seguiu numa outra direção. Em “Viver a Vida”, a história que eu tinha, também exigia uma Helena mais jovem, que concorresse com a filha do homem com quem se casava. E a Taís foi a minha opção, já que eu – desde sempre – quis escrever um papel para ela, de quem sou um admirador de todas as horas. Posso garantir que fiquei feliz com o trabalho dela e que ela se saiu muito bem, mas entendo que as pessoas esperassem uma Helena nos moldes das anteriores. Isso estava muito definido na memória do público, pois só a Regina fez Helena por três vezes. Isso não é censura, é preferência. Não discuto. Sobre a morosidade da novela, desde o início eu estabeleci que a novela teria o ritmo, o tempo de uma pessoa como a Luciana. A novela andaria como ela. Um tempo difícil, custoso. E fiz assim, como havia programado. Posso ter errado na dose. Posso ter exagerado, e nesse caso, paciência, não há como voltar no tempo. Não terá sido o meu primeiro erro em 13 novelas, nem será o último. Aceito que as pessoas gostem ou não gostem do que eu faço. E quanto às críticas na mídia, dou importância a algumas (poucas), mas nunca respondi a nenhuma.
Guilherme Staush pergunta
4- Ainda sobre “Viver a Vida”. A novela tratou de um tema bastante delicado e pouco explorado nas novelas: a superação. E teve na figura de Luciana, interpretada por Alinne Moraes, a personagem responsável por representar essa temática da novela. Ela era uma jovem linda e rica, tinha pais maravilhosos, um homem que a amava e que não media esforços para agradá-la, conseguiu continuar a exercer sua profissão de modelo apesar de sua condição física afetada, e vivia cercada de todos os luxos e mordomias que uma pessoa pode ter: teve a grande casa onde morava readaptada para suprir suas necessidades, um quarto amplo, confortável e até mesmo uma cama que falava. Tudo isso, sem dúvida, ajudou a personagem a superar a tetraplegia. Por que razão você optou em mostrar a superação de um trauma físico através de uma personagem que talvez não reflita as condições da maioria dos deficientes físicos brasileiros? Acredita que a Luciana teria vencido todas as barreiras que lhe foram impostas se fosse uma menina pobre, desprovida de beleza, e sem a vida confortável que a personagem da novela teve?
Isso foi de caso pensado. Uma jovem linda e rica, reduzida à imobilidade, e tendo que superar a revolta que isso lhe causa, justamente por ser jovem, linda e rica. “Por que eu?” ela perguntava. Se fosse uma pessoa pobre, simples e habituada a dificuldades, certamente perguntaria “por que não eu?” Ou então: “isso tinha que acontecer comigo!”. Mas ela vivia numa redoma, cercada de facilidades, com a vida toda preparada para o seu brilho... Então aquele desastre ficou mais violento. A superação fica mais difícil e não mais fácil como você afirma na sua pergunta. Quanto mais uma pessoa possui, mais custoso fica perder essas posses. E os depoimentos no final de cada capítulo serviam de contraponto à Luciana, mostrando pessoas de todos os níveis sociais, econômicos e culturais, num desfile de gente bonita alternada com gente feia. Um desfile que contrastava com o nível social, econômico e cultural da protagonista.
Daniel Pepe pergunta
5- Gilberto Braga optou em suas últimas novelas por realizá-las em regime de co-autoria com Ricardo Linhares. Com isso, o trabalho fica menos extenuante para o autor, podendo deixar o processo criativo mais livre de pressões, já que os prazos podem ser cumpridos com mais folga. O que você pensa a respeito? Cogitaria essa hipótese de escrever uma novela dividindo a mesma responsabilidade com outro colega?
Não faço nenhuma objeção e estou pensando seriamente nisso. Já na minissérie “Maysa” eu chamei a Ângela Chaves para escrever comigo. Mas é preciso levar em conta que eu venho do teleteatro e da TV ao vivo. Eu escrevia, muitas vezes, de 80 a 100 páginas, que duravam 3 a 4 horas no ar. Tinha que ser sozinho, pois era um trabalho feito em casa, com máquina de escrever, varando dias e noites, durante uma semana. Na Globo mesmo, as primeiras novelas que eu fiz (Maria Maria, A Sucessora, Baila Comigo e Sol de Verão, nem colaboradores eu tinha. Era eu e Deus. Sou centralizador, chamo para mim a responsabilidade total da novela. Aprovo pessoalmente cenários, figurinos e elenco, em condições de igualdade com o diretor. Isso cria, forçosamente, o hábito de querer resolver tudo sozinho.
Guilherme Staush pergunta
6- Alma Flora Pirajá de Albuquerque, um grande nome para uma grande mulher. De fato, a personagem de Marieta Severo em “Laços de Família” é uma das mais bem escritas, na minha opinião. Era uma mulher admirável pela sua praticidade em encarar os problemas da vida, tinha qualidades e defeitos perceptíveis em várias pessoas que conhecemos no nosso dia a dia, o que a tornou bastante humana nesse aspecto. Mesmo não assumindo ares de vilã, ela foi a antagonista da história, impondo vários obstáculos ao amor de Edu (Reynaldo Gianecchini) e Helena (Vera Fischer), e ainda assim era uma mulher admirável. Em quem você se inspirou para criar a Alma? Na sua opinião, o que é mais admirável na personagem? Concorda que é uma de suas personagens mais bem delineadas?
Esses personagens emblemáticos, que são criados para as antagonistas, eu desenvolvo a partir do momento em que eu tenho a atriz ou ator para desempenhá-los. No caso, a Marieta estava convidada para o papel muito antes de eu começar a escrever a Alma. É um dos meus personagens favoritos, assim como a Marieta está entre as atrizes que eu mais admiro e de quem sou amigo devotado. Basicamente, não me inspirei em ninguém que possa nomear, mas num punhado de mulheres possessivas e encantadoras, que morrem e matam por amor, mas sempre com um sorriso nos lábios.
Fernando Russowsky pergunta
7- Uma das características mais marcantes dos seus últimos trabalhos é a presença de um grande número de atores. Sua maneira de conduzir as tramas, abrindo mão de ideias previstas na sinopse e incorporando outras que surgem durante a novela – pode-se dizer que se a telenovela, por natureza, é uma obra aberta, as suas são ainda mais – acaba, por vezes, deixando alguns atores insatisfeitos por não terem o destaque que acham que mereciam ter. Inclusive, foi divulgado na época de Páginas da Vida, que o ator Antonio Calloni pediu afastamento por ver-se descontente com os rumos de seu personagem. Como você lida com este tipo de situação?
Eu lido bem com todas as situações que são criadas durante os oito meses de uma novela. Sou muito escolado. A sinopse sofre mudanças que eu considero necessárias e a empresa que me paga não me pede para ser diferente. Quem entra nas minhas novelas, sabe no que está entrando, sabe que será difícil a trajetória. Faço mudanças no dia da gravação, incluo e excluo cenas depois do capítulo editado. Só a TV Globo tem condições de me dar suporte. Lamento quando um personagem não acontece e quando um ator ou atriz não fica feliz com o papel e até pede para sair. Faz parte do show, como se diz, assim como os aplausos, existem as vaias. Lido bem com as duas manifestações. Isso acontece em muitas novelas, mas nem sempre a mídia se ocupa disso com fervor, como nas minhas. Mas existe a compensação de muitos personagens serem pequenos na sinopse e se engrandecerem no decorrer da novela, fazendo seu intérprete feliz e realizado. Isso compensa a desistência dos insatisfeitos.
Guilherme Staush pergunta
8- Uma piada metalingüística feita no remake de Ti Ti Ti chamou bastante a atenção dos telespectadores. A personagem de Cláudia Raia diz para uma das empregadas do estilista Jacques Leclair: "Olha! Empregada querendo ter fala! Isso aqui não é novela do Manoel Carlos, não!"
Eu não assisti, mas me contaram. Eu costumo fazer essas menções metalingüsticas desde Baila Comigo. Muito antes disso virar e sair de moda. Acho divertido, repercute, o público sorri. Achei uma homenagem simpática da nossa querida Maria Adelaide.
E por falar nisso, você é um autor que representa um divisor de águas para as domésticas da teledramaturgia brasileira. “As empregadas do Maneco” viraram uma atração à parte em todas as suas novelas. Foi assim desde a primeira, Rita (Léa Garcia) em “Maria Maria”, na novela seguinte foi a vez do Antônio (Paulo Pinheiro) em “A Sucessora”, depois veio a Conceição (Maria Alves) em “Baila Comigo”, e por aí vai. Como surgiu a idéia de fazer dos empregados pessoas bastante atuantes e carismáticas dentro das suas histórias? As empregadas da sua casa são como as que a gente vê nas suas novelas?
Não existe numa família pessoa mais íntima do que uma empregada doméstica. Em Baila Comigo, a Helena explicando porque fazia da empregada uma confidente, dizia que para a Conceição podia contar tudo, mas não para o marido ou o filho. E o carinho entre elas era tão grande, que a empregada ficou grávida e teve o filho no sofá da sala, num parto realizado pela patroa. As empregadas, quase sempre, ficam sabendo que um casamento vai acabar, muito antes do outro cônjuge. É ela que limpa o quarto do casal, que mexe na roupa suja, que surpreende as lágrimas da patroa, que recebe o bilhete de um amante. É ela que encontra um cigarrinho de maconha no quarto do filho do casal e alerta os pais. É ela que sabe, em primeiro lugar, como estão as finanças da família. Uma vez, em Buenos Aires, eu fui entrevistado e o repórter espantava-se dessa intimidade, mas lá a história era diferente, como é até hoje: as empregadas não entram na sala, a menos que a patroa autorize. Ficam na soleira da porta, aguardando permissão. Vi isso em todas as casas em que estive. Mas aqui no Brasil ninguém pode estranhar e se admirar disso. Menos ainda no Rio, onde a areia da praia iguala todas as pessoas deitadas ao sol.
Duh Secco pergunta
9- Alguns anos atrás, a imprensa noticiou a possibilidade de uma nova versão de "Baila Comigo" para a faixa das 18h. Posteriormente, ventilaram a hipótese de um remake de sua adaptação de A Sucessora, por suas colaboradoras, tendo a sua supervisão. Estas informações procedem? Quais são os seus próximos projetos? A adaptação do romance português "Vale Abraão" pode vir a ocupar a faixa das 23h, que a Globo planeja implantar?
De Baila Comigo às 18 horas eu nunca soube. Quanto à Sucessora, eu reli e vi que seria preciso escrever uns 100 capítulos novos para atender ao tempo e às necessidades de uma novela de hoje. Cada capítulos tinha 20 páginas mais ou menos, alguns até com 16 e 17. E cada capítulo com duração entre 25 e 30 minutos, num total de 120. Esses 120, numa produção de hoje, ficariam reduzidos a 70, no máximo 80. A Sucessora tinha 20 personagens, com 8 realmente importantes. Hoje, para atender à necessidade, precisaria de 50. Sou a favor dos remakes, achei O Astro, por exemplo, um acerto e torço para que esse novo horário permaneça destinado à dramaturgia.
BATE-BOLA com Maneco
O que o Leblon tem de melhor e de pior:
Ainda é possível circular a pé pelo Leblon. A razão disso é que há pouco público flutuante nas ruas. Ninguém vem aqui para olhar as vitrinas das lojas, como em Copacabana e Ipanema. Quem ocupa o bairro são os moradores. Qualquer pessoa que não seja do Leblon é facilmente reconhecida. Claro que vem gente de todos os lugares por causa dos bons restaurantes e bares, mas comem, bebem e voltam para as suas casas. Por ser um bairro habitado por muitos artistas, atrai paparazzis e curiosos, assim como pessoas de outros estados, em busca de fotos e autógrafos, mas ninguém se importa com isso. É até divertido. E há muita paz nesse convívio. Isso é o que há de melhor no Leblon, que muitas vezes se parece a uma pequena cidade do interior. O pior a lamentar é que a violência já chegou por aqui, com essa nova modalidade de assaltos e furtos, por bandidos de motocicletas.
Dou um presente e dou um castigo para ...
Dou apenas o presente. Para a Lília Cabral.
Uma música que eu gostaria de ter na abertura de uma novela:
Até agora, tive todas que quis. Não é possível para mim fazer escolhas antecipadas. A música aparece depois da sinopse, por ter afinidade com a história que pretendo contar.
Das minhas Helenas, a que mais me emocionou foi...
A de Lilian Lemmertz, criadora do personagem.
Um sonho e um pesadelo:
No campo profissional, sonho com as novelas mais curtas em número de capítulos e duração de cada um. O pesadelo é isso não ser possível.
Um tema que ainda quero abordar nas minhas próximas novelas:
O do amor versus casamento.
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